25 janeiro 2010

Da janela...

Da janela de seu quarto, ela olha a rua imersa na madrugada como se admirasse uma tela. Tingida pela escuridão e totalmente deserta, ela pode agora ser vista em detalhes. As personagens, que antes eram os passantes em seu apressado caminhar, agora cedem lugar às casas, aos bares, às lojas, às pedras da calçada que insistem em se manter desalinhadas, alterando a passada dos que vão. As vozes, o riso, agora são apenas ecos em sua lembrança. Ficaram as janelas gradeadas, as portas reforçadas, os muros altos. Indícios de uma vida menos segura e mais solitária.

Tal qual um presépio, os morros ao longe se iluminam, concorrendo com as estrelas que também teimam em piscar. Mas poucos agora são os que ainda podem ver isso. O cenário mudou muito. A cada dia novas vigas se erguem e o tom avermelhado dos tijolos se esgueira na paisagem que antes era mais rica em verde e em céu. O vento revolve algumas folhas secas no chão. Não, não é outono, mas nesses tempos de hoje nem nas estações se pode mais confiar: é sol de rachar o inverno e frio de congelar o verão. Um pequeno redemoinho se forma na esquina, alterando a imagem estática da rua, mas logo segue adiante, deixando a sua vista.

Um gato matreiro atravessa o caminho, rápido e certeiro como uma flecha. Ele é negro como a noite já foi quando havia menos luzes. Seu alvo é uma cesta de lixo, a qual fuça, sem sucesso. Tenta outra e outra, diminuindo o ritmo e seguindo seu caminhar sinuoso e sorrateiro. Estática, novamente. Passa um tempo e um vulto aparece ao longe, primeiro como uma sombra, depois mais delineado. Decerto que é um trabalhador. Vem com passo cansado, cadenciado pelo peso de todo um dia de trabalho. Nas mãos uma sacola pequena deve abrigar uma muda de roupa e algo de comer. Sim, ela gosta de imaginar as coisas, é da sua natureza atribuir enredos a quase tudo que vê. Fica tentada a imaginar uma história para aquele homem, mas, assim como as folhas e o gato, também ele some de sua vista.

A rua volta a cair em silêncio, tão profundo, que quase pode ser ouvido. O farfalhar das folhas da mangueira trazem à seu rosto uma brisa ainda mais fresca. Seus olhos pesam e ela pensa que já é hora de dormir.

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