06 junho 2010

Ver ou não ver...eis a questão...

Idiota, idiota, idiota...foi a única coisa que ela conseguiu dizer a si mesma depois de ver aquela foto. Olhou para ela uma, duas, três, dezenas de vezes. Escolhera o pior momento para encontrá-la. Mas..haveria um bom momento para isso? Acho que não. Aquela simples imagem lhe disse tanta coisa, lhe contou tantos detalhes e lhe fez pensar duramente mais uma vez no "se"...se ela tivesse sido mais branda, se ela tivesse sido mais atenta, se ela tivesse sido mais acessível....Parecia que de tanto gostar de épicos, mistérios e charadas..ela mesmo havia se transformado em uma.

Ao procurar o que queria, mas não deveria achar, tomara uma atitude idiota e agora pagaria por isso com aquela sensação de inquietude nunca bem vinda, ainda mais quando já passava da 1 da manhã. Ela havia pesquisado três nomes, julgando ter sido por absoluta curiosidade...mas no fundo, sabia que não era só isso, embora o negasse a si mesma com a sagacidade de um mentiroso contumaz.

Como é que se briga com a própria consciência de si? Não sei...mas, ela logo descobriu que é uma briga fadada à derrota, não importa de que armas dispusesse.

Acho o primeiro nome. Leu tudo que havia. Sorriu ao notar uma coincidência, mas logo perdeu o interesse e seguiu adiante. Chegou ao segundo, com a mesma curiosidade inicial....mas tão rápido quanto no primeiro caso...deixou pra trás as informações achadas. Pensou no terceiro alvo. Apenas nesse hesitou, como se hesita no ínfimo tempo de decidir entre um sim e um não...sem pensar mais...ela seguiu. Uma lista de referências se abriu...uma...depois outra e outra...na mais improvável, deparou-se com o motivo de sua inquietação...


Quem dera ela pudesse voltar atrás e deixar as lembranças no lugar ao qual pertencem, lá atrás no vazio mais cheio que pode existir, chamado memória. Lá, pelo menos o tempo era suficientemente condescendente para amenizar a angústia e a sensação de saudade de algo que nunca havia sido. Poderia contar nos dedos de uma mão a quantidade de palavras trocadas e mesmo assim, havia uma enormidade de coisas a lembrar. Teria ela criado tudo aquilo? Teria ela imaginado cenas, situações, olhares, gestos, detalhes, apenas para se consolar?

Mais coincidências surgiram. Ela até as chamaria assim, se acreditasse nisso, mas para ela, tudo tinha um motivo..inclusive o encontro das pessoas. Se estava certa, ela não sabia, mas queria acreditar que sim...

Com aquela imagem impressa em si mesma, ela foi dormir, torcendo para ressonar tão profundamente e nem mesmo sonhar...quem sabe na manhã seguinte acordaria sem lembrança alguma daquele fato. Não demorou a pegar no sono, afundando-se no mar de emoções confluentes no seu universo interior. Adormeceu sorrindo palidamente ao imaginar que era engraçado ser a realidade, para ela, tão concreta, sempre tão cheia de sim e não, sempre uma linha reta, sem curvas, atalhos ou passagens secretas. Pensou que talvez por isso suas histórias reais eram tão menos significativas que as que permaneceram apenas em potência.

Um comentário:

Throwing it all disse...

Ownnn...que lindo!
Acabo de me ver aqui!
Também tenho mania de procurar coisas das quais seria melhor não saber. Tem coisa que a gente definitivamente não deve saber. Ponto.

Beijos!