12 setembro 2011

Gritos no silêncio

Todas as noites a mesma cena se repete. Minha vizinha, com voz estridente e roupa vulgar sai à porta e começa a gritar por Bob, o cão. "Tooooome, Bob. Toooooome, Bob". Uma, duas, dezenas de vezes....parando para respirar e olhar para um lado e outro à espera do cão que teima em não aparecer. Confesso que ainda não entendi o tipo de relação que eles mantêm. Antes achava que Bob não era dela, mas apenas um ser a quem ela, num rasgo de generosidade que não demonstra ter com os demais parentes, alimenta todas as noites. Depois notei que ela não apenas alimenta o cão, como o faz entrar todas as noites, quase num esquema pernoite ok, mas ao alvorecer, rua. Todos os dias eu rezo pra que Bob apareça logo e entre em casa, reinando na rua o silêncio, tão raro diante da paixão de dois outros vizinhos pelas famigeradas canções do arrocha. Além disso, é necessário um tempo de latência entre os gritos por Bob e os gritos do outro vizinho para que sua esposa lhe abra o portão. "Andreeeeeeeeeeea. Andreeeeeeeeeeeea". Ele grita. Uma, duas, centenas de vezes. De vez em quando, diante um sono invencível da esposa, ele recorre às batidas no cadeado. Todos os dias se esboça em minha mente uma cena em que eu desço e entrego a ele uma nota de 5 reais presa a um bilhete que diz: "faça uma cópia e contribua com o meu direito ao silêncio". Mas eu nunca entrego a nota e ele nunca faz a cópia. Tenho a impressão de que assim como eu, Bob e Andrea também se irritam....e se atrasam na esperança de que suas sirenes humanas desistam. Mas eles nunca desistem.

Nenhum comentário: