20 novembro 2011

Comentário - O preço do amanhã


Olá pessoas,

tudo bem?

No feriado fui ao shopping com umas amigas queridíssimas (o famoso combo, um dia falo dele pra vocês....rs) e  resolvemos ver O preço do amanhã. O negócio não começou muito bem porque o sistema do Cinemark havia caído (vocês também entram em pânico quando ouvem tal expressão?!), sem previsão de volta e, portanto não era possível usar cartões de crédito nem débito. Only cash. 

Momentos de tensão na fila: quem anda com dinheiro hoje em dia?! rs.....pouca gente, pelo visto, porque a fila minguou e, mesmo entrando já nos traillers, pegamos um excelente lugar. Do filme eu só sabia que tinha o Justin Timberlake. Não que eu seja fã do rapaz, não era nem quando ele cantava Bye, Bye, Bye no N'Sync (Quem lembra? Quem fez coreografia? kkkkk), mas toda vez que eu perguntava sobre o filme uma das amigas do combo dizia: é o filme do Justin.

Pensando bem, eu sabia outra coisa: que tinha o Matt Bommer, aquela coisa bonita de meu Deus que interpreta Neal Caffrey em White Collar. O que, não conhece White Collar? Como é possível?! A série tá em hiatus.....volta (acho eu) em Janeiro. Hum....dá tempo de uma retrospectiva, né? Veremos.

Lá fui eu ver o tal filme.....e sabem o que? Que surpresa boa! Fiquei ligada do começo ao fim e assim que acabou eu queria mais. Mais horas de filme, mais filmes, queria uma série, queria ficar discutindo, enfim. Amei. 

Mas como dizer adorei, amei, gostei e afins não é fazer resenha....rs....vamos aos coments de verdade.




O preço do amanhã é um filme futurista e ao ver isso, imediatamente lembrei do tema Distopia. Essa é uma palavra estranha e desconhecida para mim até bem pouco tempo, quando vi que a temática do Clube do Livro Salvador seria Sociedades Distópicas, fiquei curiosa e fui pesquisar. 

"Distopia ou antiutopia é o pensamento, a filosofia ou o processo discursivo baseado numa ficção cujo valor representa a antítese da utopia ou promove a vivência em uma "utopia negativa". As distopias são geralmente caracterizadas pelo totalitarismo, autoritarismo, por opressivo controle da sociedade. Nelas, caem as cortinas, e a sociedade mostra-se corruptível; as normas criadas para o bem comum mostram-se flexíveis. A tecnologia é usada como ferramenta de controle, seja do Estado, seja de instituições ou mesmo de corporações. Distopias são frequentemente criadas como avisos ou como s[atiras, mostrando as atuais convenções sociais e limites extrapolados ao máximo. Nesse aspecto, diferem fundamentalmente do conceito de utopia, pois as utopias são sistemas sociais idealizados e não têm raízes na nossa sociedade atual, figurando em outra época ou tempo ou após uma grande descontinuidade histórica". (Fonte: http://pt.wikipedia.org/wiki/Distopia).

Pois bem, o que vemos em O preço do Amanhã, cujo nome original é In Time, é que a moeda de troca agora é o tempo. Poupa-se tempo, gasta-se tempo, ganha-se tempo, perde-se tempo. É uma discussão fundamental e, por isso mesmo, angustiante.

As pessoas vivem suas vidas normalmente até os 25 anos. Quando completam essa idade, uma espécie de cronômetro é ativado em seus braços e eles contam com apenas mais 1 ano de vida. É aí que a corrida começa. A violenta desigualdade na distribuição de renda que temos hoje, mantem-se, só que aplicada à distribuição de tempo. Enquanto os ricos presenteiam seus filhos com décadas, os pobres têm que matar um leão por dia para ter mais tempo de vida. E não pensem que "matar" é uma força de expressão. Corpos são encontrados nas ruas porque pessoas roubam o tempo das outras através de um "simples" toque nos braços.

Há uma fila de doação de tempo. Mas nunca há o que doar. Há lojas de penhores de objetos em troca de tempo, mas rapidamente os bens se esgotam, assim como a vida.

Fiquei ansiosa vendo as pessoas olhando repetidamente para seus braços a fim de verificar o tempo em contagem regressiva, pois, para eles, normalmente não há muito mais que 24 hs.  O salário é pago em tempo e os gastos todos são cobertos com tempo. Um café custa 4 minutos. Eu ri e imediatamente me choquei com uma cena quando a mãe do personagem Will Sallas (Justin Timberlake) é solicitada a pagar 2 hs de vida pela passagem de ônibus. 

Ri porque achei surreal e me perguntei por uns 2 segs de onde o autor havia tirado aquela ideia maluca. Mas logo em seguido me dei conta de que ele não havia inventado nada, apenas tornava mais claro, através de uma espécie de caricatura aquilo que já acontece: quando entro no ônibus, a caminho do trabalho ou de qualquer outro lugar, eu, de fato, deposito em média 1h e 30 min. Hora perdida, porque sem qualidade. Sigo irritada com o calor, com a demora, com a quantidade de veículos que atravancam o caminho, com a paisagem de concreto, com a falta de educação/ respeito generalizada, com a ilusão de que poderia estar em diversas outras atividades muito mais prazerosas. Digo ilusão porque quando o tal tempo livre aparece, me apresso em preenchê-lo com tarefas, em sua maioria enfadonhas, sempre com a justificativa que é preciso cumpri-las.

Além da luta pelo tempo, há outro elemento curioso: as pessoas não envelhecem. Elas congelam em 25 anos e assumem aquela aparência até morrer. Como não se impactar com a cena em que um milionário apresenta sua filha, esposa e sogra, as três com a mesma cara?

Atuando com este pano de fundo, temos Will Sallas (Justin Timberlake) que, depois de um acontecimento dramático, resolve se rebelar contra o sistema e para isso recebe a improvável ajuda de Sylvia (Amanda Seyfried). Lembro que Vivi, uma amiga do combo, perguntou se a moça estava sofrendo da síndrome de Estocolmo. Acho que não. Acredito que ela sofria de uma síndrome mais moderna: a do não viver. De que adianta ter muitos anos de vida se não se consegue/ pode vivê-los? Afinal, o que é mesmo viver? É estar vivo ou sentir-se vivo?

Muitas perguntas, muitas ideias ainda embaralhadas. Vi uns comentários negativos sobre o filme. Coisas como não haver química entre Justin e Amanda Seyfried, ou que um diretor como Nolan poderia ter realmente criado um clássico. Bom, eu achei que eles convenceram como um casal, inclusive o carisma de Justin me surpreendeu, eu já havia gostado dele em Professora sem classe, mas aqui realmente me empolgou. Nunca tinha visto nada da Amanda, mas achei que ela incorporou a parceira destemida e afogueada. As cenas dela com o revolver são perfeitas! rs. Olivia Wilde aparece brevemente, mas muito bem. A angústia dela foi plenamente sentida por mim e pra não dizer que eu vi um filme sem chorar....ela arrancou isso, ainda que de modo contido, de mim. Matt Bomer achou pouco ser incrivelmente bonito.....e resolveu ser talentoso também. Curta aparição, mas muito bem feita. A sua expressão era de total desesperança; daquele que escolhe a morte porque a vida não tem nada a lhe oferecer. 

Destaco ainda o agente do tempo, interpretado por Cillian Murphy. Eu não sabia o nome desse ator e só o tinha visto em A Origem (ele é o refém no qual implantam a ideia). Na época eu fiquei mais impressionada com os olhos profundamente azuis do que com a atuação em si. Mas em O preço do amanhã ele está muito, muito bem. Sua expressão fria e, principalmente, a certeza plena de que as coisas devem continuar como estão, mesmo que ele também seja vítima do sistema, me perturbaram bastante. É uma expressão da nossa polícia, mais que isso, dos nossos sistemas repressores. Mesmo sendo vitimados pela violência do sistema, agem cegamente em defesa dela, ignorando o que de fato promove o bem comum, o bem estar social. Promover a paz e harmonia através da guerra. Como é possível?

Há muitas frases interessantes no filme. Destaquei essas três para ilustrar melhor a ideia do filme:

"Você ganha tempo. Você gasta tempo".

"Os pobre têm de morrer. É como o sistema funciona"

"Para alguns serem imortais, muitos precisam morrer"

Qualquer semelhança com a sociedade em que vivemos NÃO é mera coincidência. Nós não temos cronômetros nos braços, nem bancos com máquinas de horas. Temos controles invisíveis e, por isso mesmo muito mais perigosos e opressores. Continuamos a ser escravos cujo sangue cimenta os alicerces dos impérios. Nada mais somos que escravos do relógio, sempre com pressa querendo ganhar tempo que, por sua vez, não gastamos em nada a não ser em mais servidão voluntária.

Deliciem-se com o trailler:




E completem com um conto de Julio Cortázar, autor argentino, do qual o filme também me fez lembrar. Lá vou eu e minha mania de fazer hiperlinks!



Preâmbulo às Instruções para dar Corda no Relógio 


"Pense nisto: quando dão a você de presente um relógio estão dando um pequeno inferno enfeitado, uma corrente de rosas, um calabouço de ar. Não dão somente o relógio, muitas felicidades e esperamos que dure porque é de boa marca, suíço com âncora de rubis; não dão de presente somente esse miúdo quebra-pedras que você atará ao pulso e levará a passear. Dão a você – eles não sabem, o terrlvel é que não sabem – dão a você um novo pedaço frágil e precário de você mesmo, algo que lhe pertence mas não é seu corpo, que deve ser atado a seu corpo com sua correia como um bracinho desesperado pendurado a seu pulso. Dão a necessidade de dar corda todos os dias, a obrigação de dar-lhe corda para que continue sendo um relógio; dão a obsessão de olhar a hora certa nas vitrinas das joalherías, na notícia do rádio, no serviço telefônico. Dão o medo de perdê-lo, de que seja roubado, de que possa cair no chão e se quebrar. Dão sua marca e a certeza de que é uma marca melhor do que as outras, dão o costume de comparar seu relógio aos outros relógios. Não dão um relógio, o presente é você, é a você que oferecem para o aniversário do relógio".

Extraído do conto Manual de Instruções, do livro Histórias de Cronópios e Famas, de Julio Cortázar. Tradução de Gloria Rodrigues em Os 100 Melhores Contos de Humor da Literatura Universal, organizado por Flávio Moreira da Costa, Ediouro, 7ª Edição, 2001.


Até mais!

3 comentários:

Juliana disse...

eu amo esse conto do cortázar, amo o justin, mas não tenho curiosidade ver esse filme. Acho que é implicância. =p

Ruiva disse...

Obrigada pelo carinho sempre.
=)

Beijas

Josilene disse...

Oi!

Vi este filme hoje e tenho que dizer que não é a última bolacha do pacote, mas é bem legal. Dá pra ver e se entreter de forma decente. rs

Gostei do Justin no filme e não tenho mais reservas qto a ele como ator. O cara tá arrasando.

Vou deixar uma coisa registrada aqui... quando eu li aí no texto o "eu só sabia que tinha o justin", eu fiquei extremamente magoada. Quase ia aí te bater. Enfim... como sou maltradada...

Agora... vamos ao que interessa: a atuação de meus amores, Matt Bomer e Olivia Wilde. Ok, Olivia não passa nem 5 min em cena... mas... é a melhor atriz do filme. Deal with this. E Matt... Perfeito.

Vou parar por aqui pq daqui a pouco escrevo mais do que a autora do post.

Bye.