30 dezembro 2011

A cidade das palavras (Alberto Manguel)

Olá pessoas!

Tudo bem?

A resenha de hoje é fruto de um encontro. 

Era uma vez uma aluna de Comunicação que chegou 1:30 h antes da reunião de equipe. Sem ter o que fazer, foi à seu lugar favorito na faculdade: a biblioteca. Passeando pelas estantes, selecionou o que queria e sentou-se. Entretanto, deixou sua pilha de lado quando viu em cima da mesa um livro chamado “História da leitura”. Por causa dele, a antecipação de 1:30 h, virou atraso de 30 minutos, porque a estudante se perdeu nas palavras do autor e esqueceu da reunião. Assim que chegou em casa, pesquisou na internet tudo que o autor havia escrito e incluiu todos livros na lista de leitura. Um dia, entre a escolha de pagar 10 reais de frete ou incluir um livro, achou A cidade das palavras por apenas R$ 12,00 reais. Não hesitou e comprou. Na verdade, ela sabia que compraria independentemente do frete. E não se arrependeu. Foi essa história que deu origem à resenha de hoje.

A cidade das palavras: 
as histórias que contamos para saber quem somos



Vou ser sincera: não achei o começo do livro fácil. 

Alberto Manguel procura mostrar, ao longo de cinco capítulos, toda a influência fundamental da linguagem e, consequentemente, da literatura, na nossa vida cotidiana, na construção das identidades, histórias pessoais e coletivas e como isso nos acompanha desde os primórdios.

É muito interessante a sua forma de escrita que se assemelha a uma costura, ou melhor, a um encadeamento de links que conduzem ao leitor, no início, meio perdido diante de tantas informações, mas logo depois completamente mergulhado e inebriado, se dando conta do quão fascinante é estudar os usos da linguagem.
Porque estamos juntos” é a pergunta que dá início ao livro e que percorre toda a obra. 

Manguel reconhece o caráter gregário do ser humano, mas se parasse aí, poder-se-ia dizer que estava chovendo no molhado. O que ele busca discutir se refere ao que mantém os grupos juntos, o que lhes confere senso de pertencimento, de identidade. O que faz com que nos reconheçamos como parte de uma sociedade diferente de outras. A eterna dinâmica eu-outro, que, invariavelmente leva a outra brilhante discussão sobre o estranho, o estrangeiro. O medo que o outro nos causa, mas, ao mesmo tempo, a profunda necessidade de que ele exista para a nossa própria afirmação.

que nossa vida nunca é individual; que é infinitamente enriquecida pela presença do outro e, portanto, empobrecida por sua ausência. Sozinhos, não temos nome nem rosto, ninguém que nos chame e nenhum reflexo que nos permita reconhecer nossas feições”. P. 40.

Nesse sentido, a leitura de Manguel me trouxe de volta a discussão que fiz na resenha das Crônicas de Nárnia ( relembre aqui! ), sobre a forma de C.S. Lewis falar do Oriente como sempre exótico, feroz, cruel e não plenamente desenvolvido como o Ocidente. As análises nessa parte de A cidade das palavras se focam na Espanha disputada por árabes, judeus e católicos e são ricas como uma aula de história.

O autor ainda pontua como o Norte também figura em várias histórias como o lugar do exílio, do desconhecido, do sonho e mistério; imediatamente pensei que, então, não é  à toa que, em Crônicas de Gelo e Fogo, a terra natal de Ned Stark seja temida e ao mesmo tempo desprezada pelos outros povos de Westeros. Os caminhantes brancos, a patrulha negra, o Inverno eterno, os lobos gigantes. Terror e fascinação caminham lado a lado, nos afastando e nos aproximando daquilo que não conhecemos.

Qual o papel do contador de histórias e qual a importância de termos histórias?

Por mais que possamos lamentar o fato, a linguagem escrita, em sua origem, há mais de 5 mil anos, não foi criação de poetas mas de contadores. Ela vem ao mundo por razões econômicas, a fim de manter um registro de fatos: posses, transações, contratos de compra e venda”. P. 63.

Manguel nos mostra que escrevemos e contamos histórias para dar materialidade, para confirmar a existência dos fatos. Estes só existem quando contados, recontados, transferidos, interpretados e assimilados. O papel do contador de histórias é mexer com nossa imaginação, com nossos sentidos, é despertar lembranças, evocar ações. O contador de histórias existe para que não permaneçamos estagnados para sempre.

Ele segue adiante, discutindo a relação do leitor com a leitura e de que como isso vem passando por uma brusca transformação, desde que a indústria literária passou a ser determinada, controlada e orientada pelas leis do consumo. É analisada desde a disposição dos livros numa loja, o esquecimento de obras fabulosas e autores brilhantes, até a produção maciça de literatura fast food, feita apenas para entreter e embotar. A essa literatura superficial, sem essência, ele equipara a propaganda, com slogans fáceis, rápidos e efêmeros. Essas seriam estratégias que acabam por minar a reflexão e o questionamento, este último, um dos atos mais revolucionários da aventura humana.

À medida que nossa capacidade de armazenar se amplia, mais premente é a necessidade de desenvolver modos mais penetrantes e profundos de ler histórias cifradas. Para tanto, temos de deixar de lado as tão louvadas virtudes do rápido e do fácil e reaver nossa percepção positiva de qualidades quase perdidas: reflexão profunda, avanço lento, tarefas difíceis” . p. 69.

Eu reli a frase acima umas três vezes, não por falta de compreensão, mas por estar meio extasiada de ter lido uma coisa que eu pensava mas nunca havia formulado em palavras. Sabe como é isso? Você sente uma coisa, mas não sabe explicar, aí vem alguém e fala e você diz: é isso!

É essa leitura mais profunda, mais dedicada, mais reflexiva que eu não vejo em algumas pessoas....na verdade, eu não vejo em muitas pessoas e por isso acho tão importante ler os clássicos. Você pode ler e achar uma droga. Ok, mas eu acho que você que diz amar literatura não pode não ler.

Não é uma questão de ditadura, de esnobismo ou que os clássicos sejam melhores do que os demais livros. O fato é que eles trazem algo tão especial que os torna eternos, marcantes, angustiantes. Os clássicos nos obrigam ao exercício do pensar enquanto tantos outros parecem querer nos livrar disso, como se raciocinar fosse um fardo.

Lembro bem quando eu li Dom Casmurro pela primeira vez. Eu tinha uns 12 anos e fiquei com raiva de Machado de Assis por umas duas semanas, sério...rs. Eu não admitia um cara ter escrito aquilo tudo, ter morrido e nos deixar na dúvida. Aí o tempo passou e foi ficando claro para mim que eram exatamente essas obras com lacunas (não necessariamente sem final ou ambíguas), obras que deixavam espaço para que eu, leitora, me incluísse e fizesse a minha história, eram as melhores. As obras que me davam tudo mastigado eram um tipo de afronta, mais ditatoriais no sentido de que me impunham as suas definições, do que libertárias, caráter essencial da literatura para mim.

Enfim, todas essas análises, o autor faz às custas de um número obsceno de citações e referências e eu pessoalmente fiquei encantada com o arcabouço teórico desse homem. Ele fala do Gênesis, da cultura Greco romana, chega ao Terceiro Reich, volta à Noé e seus descendentes, passeia confortavelmente por diversos escritores das mais variadas nacionalidades e gêneros literários, descreve a epopéia de Gilgamesh em toda a sua beleza e profundidade, nos apresenta Dom Quixote e seus meandros escondidos, disseca a história árabe na Espanha, relembra Jack London, ressuscita 2001 Uma odisséia no espaço.

Só tenho duas queixas sobre o livro:

 1. Que ele seja tão curtinho!

      2.  Que tenha uma capa que não o valorize! Apesar de ser clean como são as capas da Companhia das Letras e ter imagens relacionadas à temática discutida, achei que ficou com a cara daqueles livros técnicos que as pessoas deixam acumulando poeira nas estantes das bibliotecas.

    Essa é uma leitura que eu recomendo e muito! Quando estava chegando ao final do livro, já contava as palavras com pena de acabar e imaginando em reler imediatamente.

      Ficha técnica:
      

     A cidade das palavras

Alberto Manguel

Tradução: Samuel Titan Jr

Editora: Companhia das Letras

Ano: 2008

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