18 dezembro 2011

Resenha - A Última Batalha

Olá pessoas!

Tudo bem?

Demorou, mas chegou! Finalmente eis aqui a resenha do último livro das Crônicas de Nárnia, 

A última batalha”.


(capa de uma versão individual. Fonte: Submarino)


A demora se deve tanto às semanas corridas nesse final de ano, quanto ao fato de que acho que estava me segurando para não abandonar o livro. Lembro que certa vez vi uma entrevista de Clarice Lispector dizendo que cada vez que ela terminava de escrever um livro, se sentia meio morta. Levava um tempo para renascer, e esse processo nunca terminava.

Acontece algo mais ou menos assim nas minhas leituras. Não é tão intenso, claro, mas quando o final de um livro se aproxima, eu ajo como se quisesse esticar as palavras. Eu sei que outras histórias me esperam, fico ansiosa para ler outras coisas, mas a sensação melancólica sempre me acompanha. Além disso, As Crônicas de Nárnia tem uma característica especial: foi o primeiro livro que resenhei. Foi ele que me mostrou que sou capaz de fazê-lo e que me impulsionou a fazer do blog algo mais sério e mais empolgante para mim mesma.
Sendo assim, vamos lá!

Bom, depois de ter sofrido nos livros anteriores sabendo que os irmãos Pevensie não mais voltariam à Nárnia, fiquei curiosa para saber quem seriam os personagens dessa última história. O começo é um pouco estranho, com a apresentação de um macaco e um jumento, respectivamente, Manhoso e Confuso. Os nomes são pitorescos e refletem, na sua simplicidade, a personalidade dos envolvidos.

Os dois encontram numa cachoeira a pele de leão (que havia sido abatido por um caçador) e é aí que Manhoso tem a incrível ideia: fazer da pele uma vestimenta para Confuso e apresentá-lo como Aslam. Quando li isso, pensei que seria criada uma grande confusão, mas no estilo daqueles pastelões, onde os supostos vilões são patetas o suficiente para que a farsa não consiga dar mais que dois passos.

Enganei-me. O que se segue é uma trama meio sórdida que pode ser interpretada de várias formas, a mais óbvia como uma metáfora sobre pessoas iludidas por falsos profetas, digamos assim. A fé, quase sempre associada e mantida pelo medo, é aqui manipulada por Manhoso a fim de conseguir suprir toda a cobiça que sempre guardou dentro de si. A relação dele com Confuso é deprimente pelo nível de mesquinharia do macaco, fingindo-se de amigo generoso,  deturpando argumentos, quando na verdade, apenas o vê como um meio para atingir o fim desejado.

Se generalizarmos um pouco mais e sairmos do terreno nebuloso e conturbado da religião, é possível pensar no quão danoso é permitir que as pessoas nos digam quais são os nossos limites, o que podemos fazer e/ou ser. Frequentemente Manhoso diz que confuso não é muito esperto. Confuso sempre concorda. No fim das contas, foi essa permissão dada por Confuso à Manhoso que permitiu que a farsa fosse tão longe.

A mentira envenena. Esse é um fato incontestável e foi a desconfiança gerada por ela que fez com que o rei Tirian (último rei de Nárnia) conseguisse angariar tão pouco apoio na luta contra Manhoso, que a essa altura já estava aliado a um tarcaã (n sabe o que é? Visite a resenha de O cavalo e seu menino! ) e ao matreiro gato Ruivo. O rei e os poucos narnianos que se juntaram à causa já perdiam as esperanças de sucesso quando a ajuda veio inesperadamente: Eustáquio e Jill, que traziam notícias de que os sete amigos de Nárnia haviam se reunido para ajudar, embora nem todos tivessem conseguido chegar.

Um momento. Sete amigos de Nárnia. Sete? Como assim? Nas minhas contas seriam oito: Digory e Polly, Pedro, Susana, Edmundo e Lúcia, Eustáquio e Jill.

Mas, eles estavam certos, eram sete. Por quê? Vocês vão ter que ler (maldade modo on...rs).

Nessa aventura coube de tudo. Os sete tentaram recorrer ao resgate dos anéis mágicos, primeiro meio de transporte até Nárnia, mas falharam. E, como sempre, quando tudo estava (quase) perdido, o rugido do leão encheu a atmosfera de esperança na salvação. Até a alegoria da caverna de Platão foi tomada de empréstimo, creiam! Outra parte interessante é quando Lewis, através do diálogo entre Tirian, o último rei, e Eustáquio e Jill, relembram a história de Nárnia e com ela, os personagens que vimos nos livros anteriores, todos os guerreiros, reis e rainhas, até mesmo a forma como Nárnia foi criada.

Anões são personagens que sempre me chamam atenção nos épicos de fantasia. Primeiro porque nunca são incluídos na raça dos humanos e em segundo lugar porque são sempre mineiros e gananciosos. O que acontece, hein? Em “A última batalha”, discute-se através dos anões a ideia de que as pessoas vêem o que querem/podem ver.

Há uma passagem em que eles se encontram no mesmo lugar que Tirian e os sete amigos de Nárnia; é um lugar de paz, mas eles se vêem em um lugar sombrio, frio, escuro. Nada é capaz de tirá-los essa certeza, o que me remeteu imediatamente à Ensaio sobre a cegueira e sua máxima de ter olhos quando os outros não podem enxergar. Também pensei no pequeno príncipe. Ver e enxergar é a mesma coisa? Não. O principezinho no seu pequenino mundo há muito nos disse que o essencial é invisível aos olhos.

O final assumiu uma aura Caverna do Dragão (na verdade, essa última é que deve ter se inspirada em Lewis, já que ele é bem anterior!) e só veio coroar a exaltação cristã. A ideia de que os bons herdarão o reino dos céus é seguida à risca e quem lembra de todo mundo que passou por essa longa história vai se alegrar em reencontrar até mesmo o Sr. Tumnus.

Acho (tenho certeza! rs) que este foi o livro onde a alegoria cristã apareceu de modo mais forte e confesso que muitas coisas me incomodaram. Não vou discutir religião aqui; esse não é o espaço, nem a oportunidade. Acredito em Deus, mas tenho dificuldade em lidar com as religiões, haja vista que, em nome delas, mais se mata que se ama.

Nesta semana assisti Ágora, um filme que não teve grande repercussão (quase nenhuma, na verdade) e o qual resenharei na semana que vem. Há uma discussão maravilhosa sobre religião neste filme. É um tema batido, eu sei, existe há tanto tempo que as pessoas, às vezes, acham que pela sua antiguidade, não precisa ser lembrado. Ao contrário, a discussão é antiga exatamente porque não está resolvida.

Fico muito preocupada quando ouço falar de tolerância religiosa, porque, para mim, tolerar equivale à imagem de alguém engolindo algo que detesta. Acho que o respeito, em vez da tolerância, é que devia ser buscado, porque o princípio deste é a convivência com o diferente, entendendo que o pensamento/crença do outro tem o mesmo valor do meu. Tolerância me parece mais um “aturar já que não tem jeito, mas quando der, fazer desaparecer a diferença”.

Infelizmente foi isso que vi neste livro de Lewis. Amei a história, a forma de narrativa, mas a temática preconceituosa embutida me deixou nervosa.

O que temos nós a ver com os calormanos? Nós pertencemos à Aslam; eles pertencem à Tash. Têm um deus chamado Tash. Dizem que ele tem quatro braços e cabeça de abutre, e que humanos são mortos em seu altar. Não acredito que esse tal de Tash exista, mas, se existe, como é que Aslam pode ser amigo dele?” (p. 648).

Aslam, o leão misericordioso


(Fonte da imagem: pedrolibre.tumblr.com)


Tash, o deus animal, diretamente associado ao mal, ao próprio diabo. 


(Fonte da imagem: mundonarnia.com)

Aliás, é tão comum vermos o Deus dos outros ser marcado como a personificação do mal, não é mesmo?

 “Ele pretendia ir adiante e perguntar como o terrível deus Tash, que se alimentava do sangue de seu povo, podia ser a mesma pessoa que o bondoso Leão, que dera o próprio sangue para salvar Nárnia inteira” (p.649).

Além disso, ou melhor, associado, ou mesmo como um desdobradamente desse desrespeito religioso, vem uma desqualificação ainda maior.Eu já havia mencionado que no livro “O cavalo e seu menino”, Lewis nos apresenta cidades e personagens com características físicas e de comportamento atribuíveis aos povos orientais, mais especificamente, árabes. Aqui ele faz isso mais claramente, citando turbantes e cimitarras e falando de um povo moreno. Incomodou-me muito a forma como ele se referia a esses povos, sempre os acusando de maldades, falta de honra, respeito, nobreza, valores.

“Depois perceberam que aqueles homens não eram os louros narnianos, mas, sim, barbudos e morenos homens da Calormânia, o país grande e cruel que fica para lá da Arquelândia, ao sul do deserto” (p. 642).

Na época de lançamento de Senhor dos Anéis (e lá se vão 10 anos. Ainda lembro do frio na barriga quando fui ver o 1º filme, sozinha, e Cate Blanchett começou sua arrepiante narração na abertura do filme) houve uma discussão sobre a presença de racismo na obra de Tolkien, já que ele apresenta os elfos, loiros e de olhos claros, como seres puros e superiores, e os aliados de Sauron, como homens escuros do oriente (lembram dos haradrim?). Lewis parece ter bebido da mesma fonte e eu não quero aqui levantar essa polêmica, mas não posso ignorar essas referências.

Um último incômodo: há uma constante referência de que os animais falantes de Nárnia são mais importantes que os animais comuns, enquanto os primeiros podem ser mortos e até mesmo se admite que eles possam trabalhar, mesmo em condições ruins, os animais de Nárnia não podem ter sua nobreza atacada. Qual a diferença?  Será que a habilidade de falar é o que os torna mais próximos de nós e os afasta dos animais comuns? Pensando assim, fica mais fácil “entender” porque tanta gente acha que os humanos merecem o respeito que não é extendido aos animais.

Enquanto escrevo esta resenha, me pergunto exaustivamente: gostei ou não gostei?

Eu diria, à princípio, que gostei. Lewis sabe contar histórias e ainda agora morro de saudades (sim! Saudades!) de um tempo que não vivi, quando ele, Tolkien e outros grandes se reuniam em pubs para trocar ideias. Mas, ao mesmo tempo, a literatura, para mim, é libertação, é abrir mentes e expandir horizontes e esses detalhes em “A última batalha” me desrespeitaram, ainda que eu não seja oriental, anã ou animal não falante. Uma obra só pode ser entendida dentro de seu contexto, eu sei, mas o respeito pela diferença deve ser um contexto imutável, atemporal.



Espero que tenham curtido essas resenhas das Crônicas de Nárnia, tanto quanto eu curti fazê-las. 



A despeito de todas as críticas, agradeço à C.S. Lewis por contribuir para que a nossa imaginação seja sempre rica.

Agradeço também por todos os comentários e aguardo, ansiosamente, por mais deles sob a forma de críticas, sugestões, enfim, a participação de vocês. 

O próximo livro a ser resenhado será de parceria com a editora Martin Claret: 

Os Arquivos de Sherlock Holmes

Até mais!

3 comentários:

Nessa Teixeira disse...

Oi! Vim lhe agradecer o comentário em meu blog cantinho de livros!
Adorei sua resenha , muito bem explicada! Sempre tive muita curiosidade sobre os livros das crônicas de nárnia,Acho que só não comprei ainda , pelo fato de não ser muito do meu Gênero preferido de livros. Mais um dia eu compro! ashaushua

Quanto á sua pergunta sobre parcerias e trocas de banners. me mande um e-mail para wanessa.wanessa@windowlsive.com
Que eu explico os detalhes da parceria por lá!

Beijinhos,
Nessa.
http://cantinhodelivros.blogspot.com

Millena Bezerra disse...

Sabe, Nayara também li inúmeras críticas a respeito do preconceito nas obras de Lewis, Tolkien.
Ainda não tive o prazer de conhecer Tolkien, mas não finjo que não senti os preconceitos que Lewis e o que posso alegar em defesa do autor é a época em que o livro foi escrito.

Gostei muito d'A Última Batalha e senti falta de Suzan a -1 amiga de Nárnia, kkkkkkk. Revelei.

Não sinto remorso em terminar livros, fico feliz, mas fiquei super malzona quando terminei de ler a trilogia Aléxandros porque eu estava super apaixonada por Alexandre, fiquei me sentindo perdida =/

Jéssica Polato disse...

Oiiie,

Crônicas de Nárnia *_____*
Ainda não cheguei ao ultimo conto, mas tô quase lá..
Adoro o livro, ou no caso, os contos.

Tentei ler de uma forma que eu não pegasse spoiler. Mas aí cheguei naquela parte de sete amigos. E fiquei curiosa..ahsuhahsu

Parabéns pela resenha.

bjinhuxxx
Eu li e Divulgo
http://euliedivulgo.blogspot.com/