16 janeiro 2012

Resenha - Admirável Mundo Novo

Olá pessoas, tudo bem?

A resenha de hoje é de um livro que queria ler há muito tempo, pois sempre recebi indicações, esbarrava em trechos e a curiosidade só ia aumentando. Depois de ver no blog The Killing Words uma excelente discussão sobre os livros de Huxley (Cliquem aqui, vale muito à pena!) não resisti; na primeira oportunidade, em vez de pagar frete, aproveitei uma promo do Submarino (sempre!) e o arrebatei.

O livro da resenha de hoje também faz parte do:


(O banner com link direto para o desafio e as resenhas que serão postadas em cada blog vocês podem ver e ali ao lado)


Admirável Mundo Novo




Autor: Aldous Huxley.
Ano de publicação: 1936.
Minha edição: editora Globo (Globo de bolso).
392 pags.



Antes de qualquer coisa eu destaco o nome do livro: acho lindo, forte, marcante e desperta a curiosidade para saber que mundo era esse, descrito por Aldous Huxley, em 1936. A minha edição é da Editora Globo, (igualzinha a essa da foto!) uma versão pocket, com texto integral e prefácio feito pelo próprio Huxley. Achei o formato bem interessante; a capa é simples, clean, as páginas são amareladas, o que ajuda a não cansar a visão. Só achei estranho o suplemento de leitura que vem no final no livro; senti-me voltando à escola..rs...esses suplementos sempre me deixaram meio tensa, pois em vez de me ajudarem, me davam a sensação de que eu não havia era entendido nada da leitura, mas enfim, gostei bastante da edição. Não está na categoria dos livros mais lindos, mas serve bem ao seu propósito e tem um preço bem justo. Acho que custou por volta de 12 reais.

Durante a leitura de Admirável Mundo Novo posso dizer que passei por várias sensações, conflitantes, muitas vezes. Logo no começo, enquanto lia, me perguntava por que mesmo havia comprado aquele livro e duvidava de que fosse chegar ao fim. Não era o tamanho que me assustava, até porque quem ama Tolkien e já leu O senhor dos Anéis duas vezes, não tem essas preocupações...rs.

O fato é que, no começo, Huxley nos brinda com um universo muito estranho, cheio de referências que eu julguei como surreais, mas que logo depois se tornaram familiares, me permitindo transitar mais à vontade do que imaginei. Não sei quanto à vocês, mas acontece isso quando leio textos distópicos: de início fico meio chocada e achando tudo ficção científica por demais futurista, ou seja, tão avançada que não faz muito sentido para mim. Mas, depois as referências começam a formar links com coisas que já acontecem e eu entendo que, de fato, não passam de exageros (em alguns casos nem tão extremos assim!) do que já vivemos. Então, passado o choque, me empolguei na leitura. Huxley escreve bem (olha a pessoa se achando!) e é impressionante notar a perspicácia desse homem através das observações, sátiras, críticas e ironias sobre a sociedade que ele apresenta em 1936!

Na época em que se passa o livro, um período chamado de Pós Ford, as pessoas não nascem, elas são “manipuladas” em laboratório. Os óvulos são fecundados e o desenvolvimento é feito nos chamados bocais, um ninho de incubação dos humanos. Todo o desenvolvimento é descrito como funcionando numa espécie de fábrica de gente, onde operários separam as pessoas pelo destino que lhes é determinado: os predestinadores são as pessoas responsáveis por determinar quem serão os novos sujeitos e quais tarefas lhes caberão na vida. A partir dessa determinação, estimula-se mais ou menos, condiciona-se de uma forma ou de outra. Pessoas destinadas a ser operários, por exemplo, são condicionadas a amar o controle e serem felizes assim. Apenas os alfa, os seres superiores, guardam algum tipo de liberdade. São esses personagens que nos apresentarão as angústias, que, mesmo diante de tantos e tão eficientes condicionamentos, conseguem emergir. A noção de coletividade é corrompida e manipulada de tal forma que as pessoas não desempenham nenhuma atividade de forma independente; a solidão e o isolamento são desencorajados, assim como a literatura. Esses são considerados elementos perigosos, pois levam à reflexão e, consequemente, ao risco de invalidar os condicionamentos.

Admirável Mundo Novo é uma leitura fascinante e assustadora. O horror que o reconhecimento daquelas situações extremadas me causou trouxe tantas reflexões que me deixaram com a cabeça pipocando de ideias, revisões de valores, questionamentos. Se eu fosse falar de todas as coisas que pensei, a resenha seria mais gigantesca do que elas normalmente já são por aqui...rs. Então destaco só alguns elementos para dar à vocês uma ideia do brilhantismo de Huxley.

Os personagens têm nomes baseados em figuras históricas, como, por exemplo, Bernard Marx e sua sensação de não pertencimento ao grupo alfa do qual fazia parte. Ele dá espaço para a discussão sobre o diferente e a tolerância violenta de seus pares; a necessidade de ser popular e a constatação de que corremos o risco de nos tornarmos todos iguais. Lenina representa a total adesão ao sistema, incluindo o incentivo à liberdade sexual como forma de compensação da falta de outras liberdades. Como anestesia para todas as dores há o soma. E aqui também há passagens memoráveis, como essa:

Seis anos depois era fabricada comercialmente a droga perfeita (...) Eufórico, narcótico, agradavelmente alucinatório. (...) Todas as vantagens do Cristianismo e do álcool; nenhum dos seus inconvenientes”. P. 97.

O leitor é levado a pensar que todas as pessoas do mundo funcionam segundo a lógica do Admirável Mundo novo, mas, quando menos se espera, Huxley nos apresenta a reserva dos selvagens, o lugar onde as pessoas ainda nasciam, não eram condicionadas e viviam à sua própria sorte. Todas as regras e valores vigentes na antiga sociedade, pré Ford, ainda valiam lá. O cruzamento entre o mundo dos selvagens e o Mundo Novo será feito por John, o Selvagem. Esse é um personagem incrível pela forma como foi construído, pelos questionamentos que faz e pelo incomodo que nos causa. A vida de John mudar quando ele encontra um livro de Shakespeare, de modo que muitas de suas falas são citações desse autor.

Se fosse escolher a melhor cena do livro, selecionaria o encontro do Selvagem com Mustafá, o diretor geral do Mundo Novo. Mond mostra o cofre onde guarda vários livros importantes na história da humanidade e aponta a leitura como uma atividade perigosa, pois nos mostra outras possibilidades, outros mundos. Há uma escolha a ser feita entre a ciência e a felicidade. Há que se abrir mão de uma para ter a outro. Felicidade, na era pós Ford, seria não desejar, não questionar, não descumprir.

Ao terminar a leitura fiquei me perguntando se Admirável Mundo Novo, entre os diversos e importantes temas que discute, não poderia também ser considerada uma homenagem ao leitor, à sua paixão pela leitura e ao fato de que ler talvez seja uma das atividades mais revolucionárias que existe.

A volta à cultura. Isso mesmo, à cultura. Não se pode consumir muita coisa se se fica sentado lendo livros” p. 92.


Espero que tenham gostado da resenha e que se sintam inspirados a ler Admirável Mundo Novo

Aguardo (ansiosamente) os comentários de vocês!

Até mais!

2 comentários:

pseudoglamour disse...

"esses suplementos sempre me deixaram meio tensa, pois em vez de me ajudarem, me davam a sensação de que eu não havia era entendido nada da leitura"
eu me sentia EXATAMENTE assim! hahaha

Vou procurar alguma edição baratinha desse livro em lojas físicas por aqui, ando evitando compras online.

Beijos!

George Patrick disse...

Obrigado. Boa resenha. Vai me ajudar a explicar o universo em torno desse livro num trabalho da universidade.