04 janeiro 2012

Resenha - O último dos moicanos (o filme)

Olá pessoas, tudo bem?

Hoje é dia de cinema, como quarta-feira bem pede, né? 

A resenha de hoje é sobre um filme de 1992, O último dos moicanos.



Antes de chegar à parte séria, organizada e centrada, deixa eu dizer uma coisa: amo amo amo de paixão esse filme!!! É uma das coisas mais lindas que eu já vi....enredo, fotografia, trilha sonora. 

Ok, passado o momento de surtação fanática (sim, porque nem bem eu acabo de ver o filme e já quero rever IMEDIATAMENTE!!! ), vamos à resenha propriamente dita:

É comum dizer-se que as grandes obras são aquelas que nos estimulam a pensar, expandir os horizontes. Concordo plenamente e o filme O último dos moicanos é um excelente exemplo de grande obra. É baseado no livro de James Fenimore Cooper, e, segundo que leu, o filme traz grandes modificações, mas isso não impede que ele continue sendo incrivelmente bom.

O filme se passa no ano de 1757, quando franceses e ingleses lutavam pela posse das terras em solo americano, contando, para isso, com a aliança de nações indígenas. Nathaniel Hawkeye é um homem branco, cuja família foi assassinada quando ele era ainda bem pequeno, sendo então adotado pelo índio moicano Chingachgook. Junto a eles vive ainda Uncas, filho biológico de Chingachgook. Seguindo o rastro de um grupo de guerreiros índios, os três acabam por salvar a vida de Cora e Alice, filhas do oficial inglês Munro, além do oficial Duncan, suposto pretendente de Cora. A atração mutua entre Cora e Nathaniel serve de pano de fundo para o confronto sangrento que se desenrola. Em meio a isso tudo há Magua, um índio Huron, aliado dos franceses, mas que na verdade, luta tão somente por seus desejo de vingança contra o coronel Munro, ao qual chama de Cabelos Cinzentos.




  
Entretanto, a minha intenção é pensar junto com vocês nas diversas possibilidades de leitura desse filme:

É possível discutir o mito do bom selvagem, atentando para não cair em nenhum dos extremos maniqueístas: nem ver o índio como plenamente ingênuo, puro e inocente, nem como o selvagem completamente feroz e desumano. Vemos índios que não se envolvem no conflito e tentam levar a sua vida adiante, apesar de todas as mudanças causadas pela entrada do branco em seus territórios. Vemos discordâncias dentro das próprias nações indígenas. Vemos Magua e os índios que se aliam aos franceses. Vemos índios aliados aos ingleses, lutando uma batalha que nem mesmo é sua. 

Vemos a inserção da cultura branca na vida indígena, na troca de peles por ouro, prata e bebidas. Vislumbramos o extermínio dos índios pelos colonizadores através da figura de Chingachgook. Podemos pensar na mudança da relação homem-natureza a partir da homenagem prestada ao cervo morto. Observamos os colonos usados sempre como massa de manobra, primeiro para ocupar terras e impedir o estabelecimento de outros e depois como braços descartáveis para a luta armada, a despeito de serem totalmente despreparados e deixarem para trás suas famílias completamente vulneráveis. Para o bem da Coroa não importa quantos corpos tenham que ser empilhados.


Além disso, me chama atenção o personagem de Magua, apresentado e normalmente assumido como o grande vilão do filme. Curioso notar que em dado momento é dada a ele a oportunidade de explicar os motivos do seu sangrento desejo de vingança contra Cabelos Cinzentos e, apesar de toda a sua crueldade, é com olhos menos extremos que eu proponho que vejamos Magua, especialmente através das palavras de Nathaniel: “o coração de Magua está confuso”.

Magua é o ser sem identidade, perdido em seu mundo destruído, teve seus filhos mortos, perdeu sua mulher, foi feito escravo e se uniu a quem o prendeu, numa espécie de síndrome de Estocolmo fingida, apenas para sobreviver. Diz que em seu coração é Huron, mas que Huron, eu me pergunto, se nem mesmo sua nação é unida, cada um lutando por seus interesses. Magua busca reconhecimento no cacique de sua tribo, mas chama o oficial Francês de pai.

Nessa história toda, o menos importante para mim foi o romance de Cora e Nathaniel, apesar do destaque no filme, através das belas figuras de Daniel Day-Lewis e Madeleine Stowe, o que me chamou a atenção foi outro romance, mais velado, selvagem, sem palavras. Baseado no olhar e no sacrifício. Um amor que se desenvolve, cresce e se torna silenciosamente forte nas montanhas da Carolina do Norte e chega a esboçar um ar de Romeu e Julieta, com o desfecho trágico.

Como uma cinéfila apaixonada pela história da América, a despeito das licenças poéticas que certamente são inúmeras, O último dos moicanos é um filme belíssimo, brilhantemente coroado pela oração final de Chingachgook. Nós, humanos, temos enorme dificuldade em ver o outro como o espelho que dá os contornos de nossa própria identidade, mas sim como a ameaça, devendo, portando, ser exterminado. Não basta matar, é preciso apagar, ou pelo menos tentar sufocar e dirimir qualquer rastro de sua existência.


As palavras do velho índio são comoventes exatamente porque a morte de um homem é uma metáfora para a morte de toda uma nação, de uma cultura, de um tempo. Para a morte da razão e do respeito ao outro.


É isso. Eu super recomendo O último dos moicanos. Não é um mero passatempo, é cinema de qualidade.

Deixo aqui o trailler e a ficha técnica. Até mais!



Ficha Técnica:

Título Original: The Last of Mohicans

Ano: 1992

Elenco: Madeleine Stowe, Daniel Day-Lewis, Pete Postlethwaite, Russell Means, Eric Schweig, Steven Waddington, Wes Studi, Maurice Roëves, Patrice Chéreau, Edward Blatchford, Tracey Ellis, Justin M. Rice, Dennis Banks

Direção: Michael Mann

Duração: 122 minutos

3 comentários:

Ilmaralina disse...

Achei muito linda a sua resenha, expressou bem claramente o porquê de você gostar tanto do filme. É isso mesmo Nay, a gente sempre pensa no mundo a partir dos nossos referenciais, da nossa cultura. Está imbricado na maneira de sermos, de agirmos, é automático. Reaprender a olhar é um exercício cotidiano e precisa, deve ser aprendido. Amei!

Nayara disse...

Obrigada pelo elogio! É tão importante qdo a gente recebe esses feedbacks.

Bj!

Julia Miranda disse...

É a resenha, sem dúvida, mais bacana que li sobre esse filme que também amo.