18 fevereiro 2012

Por um carnaval sem cordas...

Na semana passada fiquei surpresa com a seguinte declaração do cantor Bell Marques da banda Chiclete com Banana:

                                  

Essa imagem foi postada no facebook por usuários revoltados e, assim, instalou-se a polêmica. 

Não serei ingênua em pensar que um dia haverá blocos de carnaval sem cordas em Salvador. Não creio nisso. Acho excelente a inciativa de vários cantores e bandas em saírem algum dia sem cordas, cantando para o povo, mas, ao mesmo mesmo acho que ainda crescerão os camarotes, espaços VIPs, blocos de corda e afins. É o capitalismo, é a lógica do lucro e capitalização dos espaço, eventos, alegrias e sensações.

Eu já saí em bloco? Não. Por ideologia? Não. Nunca saí porque sempre achei sem graça perder todo o Carnaval indo atrás apenas de 1 trio!

Eu já fiquei em camarote? Sim, muitas vezes, mas nenhum deles tomava o espaço público como o Camarote Salvador está fazendo. Sempre fiquei em camarotes que ficavam dentro de lojas, prédios ou espaços privados, sem afetar em nada o espaço do folião pipoca.

Aliás, por falar em folião pipoca, foi assim que vivi meus melhores Carnavais!

Carnaval bom é na rua, como folião pipoca, pulando atrás de cada trio, encontrando os amigos, rindo de tudo e nada, vendo o carnaval e curtindo em vez de só olhar o fundo de um trio, contido pelo abadá. 

Carnaval bom é fora da corda, que subemprega homens e mulheres franzinos (mulheres grávidas, idosos...) e mal alimentados , mal tratados (vocês já viram que cada cordeiro tem apenas UMA luva e se precisam usar a outra mão para puxar a corda, o fazem com a mão nua?), humilhados. 

Segundo o acordo assinado, "
os blocos de trio pagarão, no mínimo, R$ 34,00 por dia de trabalho do chamado cordeiro, mais o valor referente a dois vales-transporte. Os blocos se comprometeram a fornecer luvas, filtro solar, protetor auricular, camisa de identificação, lanche e pelo menos três garrafas de água para cada cordeiro" (Fonte: http://www.bahiatodahora.com.br/destaques-esquerda/noticia_destaque3/grandes-blocos-de-trios-pagarao-diaria-de-r-34-aos-cordeiros).

Todo ano é essa mesma história bonita e nenhum cumprimento. Na quarta feira de cinzas, em todos os anos, os cordeiros têm que brigar para receber o pagamento dessa "rica" diária.

A "corda" é um tema que dá pano para manga. É interessante pensar:

- em como os cordeiros empurram os foliões pipoca e nesse momento se sentem diferentes deles, superiores, esquecendo sua condição de explorado;

- em como quem não sai em bloco é visto como "pobre"; nunca se imagina que a pessoa possa simplesmente não QUERER pagar por aquilo;

- em como os foliões do bloco saem aos tapas com os cordeiros, numa relação de dependência e ódio que parece mais uma bomba relógio;

- em como quem fica em lugares mais altos pode ver claramente o quão branco é o bloco e o quão negra é a corda, daí a frase:


- em como as pessoas pagam blocos caríssimos e recebem em troca abadás de péssima qualidade e gosto e são encaixotadas em um espaço apertado, sendo obrigadas a andar compactadas pelo circuito, quando, na verdade, deveriam estar dançando, se divertindo, vivendo o Carnaval.

Enfim, são muitas nuances, muitas coisas para se ver e para se pensar sobre o Carnaval. É uma festa que eu amo, mas que esconde em cada sorriso, uma avalanche de desigualdade e, porque não dizer, crueldade.

Precisamos contar um segredinho para o Bell: não é o povo dos blocos que "banca" o Carnaval....é o povo na rua, os milhares, milhões de rostos anônimos, trajados em suas fantasias de todo dia que oferecem o espetáculo. Nós somos a platéia que anima e infla o ego dos artistas que passam cantando. Se alguém faz favor ou oferece algo de graça....somos nós. O povo.


A-CORDA, SALVADOR!

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