29 março 2012

Salve Salvador!

Olá pessoas,

este é um post especial. Ele não tratará de séries de TV, filmes ou livros. Ele não tratará da produção de resenhas, da preocupação com a língua portuguesa ou da elegância cada vez mais ausente nas redes sociais.

O post de hoje será para declarar todo o meu amor pela cidade onde nasci e que hoje completa 463 anos. 

                        

Fiquei um bom tempo pensando em que tipo de texto escreveria no dia do aniversário de Salvador. Poderia ser um texto exaltando todas as beleza da cidade e todas as características que fazem deste lugar um destino muito procurado. Poderia ser texto crítico, daqueles bem militantes falando de todas as dificuldades que temos e da total ausência de mobilização política, em todas as esferas, inclusive da população em geral, para atender nossas necessidades. E foi aí que eu pensei bem e deixei que virasse texto o que viesse do coração.

Salvador. Nossa Salvador. Quem é você, cidade?

Todo mundo sabe que somos conhecidos como a terra da alegria e curtição. Temos festas de 1 de Janeiro à 31 de dezembro, incluindo aí um ensaio que se chama "a melhor segunda-feira do mundo", dia em  que todo mundo deveria estar trabalhando e chegando em casa morto de cansaço. O que talvez vocês não saibam é que, para nós, festa é negócio, seja para a empresa que aluga espaço, para a distribuidora que providencia as bebidas, para a fábrica de toldos e coberturas ou para a tia do churrasquinho de gato ou da barraca de capeta.

Em vez de nos chamar de preguiçosos, indolentes, como costumam repetir as piadas encomendadas nos humorísticas televisivos, você que não vive deveria saber que os nossos índices de desemprego são alarmantes, as nossas crianças nascem, crescem, se degradam e morrem nas ruas. Os capitães da areia eternizados por Jorge Amado foram substituídos por meninos-velhos, corroídos pelo crack e pela falta de acolhimento. A sociedade os rejeita e eles, na ausência de outra forma de relação, se aproximam pela violência, única linguagem ouvida no "mundo cão". 


Somos uma cidade predominantemente negra, mas sempre me chocou que na universidade  federal, onde cursei Psicologia, contava-se nos dedos a quantidade de estudantes negros. Também me chocava ver na "Roma Negra" a separação física, em sala de aula, entre estudantes de Psicologia e Ciências Sociais, assim como a recusa de um capoeirista em dar entrevista para "brancos".

Somos uma cidade que bate tambor, mas cujos terreiros de candomblé são invadidos e depredados, pisoteados por sujeitos brutalizados e brutalizantes. Na lavagem no Bonfim ou na passagem dos filhos de Gandhy as pessoas se deixam banhar de água de cheiro e alfazema, mas na hora de responder ao questionário do censo, ainda é de bom tom dizer-se católico.

Reza a lenda que temos 365 igrejas, uma para cada dia do ano; ninguém sabe o número ao certo, mas o que eu sei é que a maioria delas, assim como as demais construções históricas, está em ruínas, sumindo nas dobras do tempo, enterrando história viva e preciosa. 

Isso aqui é exceção!

Museu de Arte Sacra (Av.Carlos Gomes. Salvador - Ba)

Faculdade de Medicina da Universidade Federal da Bahia (a 1ª da América Latina!)


Somos uma cidade de contrastes, como tantas outras; temos uma prefeitura alienada, um povo que poderia ter mais educação consigo, com os outros, com a cidade. 


Mas eu confesso que não sei se um dia seria capaz de trocar as ladeiras cuja inclinação dá o gingado do nosso passo, as escadarias que nos transportam para lá e para cá, os becos e vielas que ligam ruas e até bairros, o cheiro de dendê que tempera a brisa morna do fim de tarde, o sorriso reluzente e a roupa engomada da baiana no Pelourinho, o elevador que virou ponto turístico por interligar uma falha geológica, os casebres que partilham com prédios de alto luxo algumas das vistas mais deslumbrantes da cidade. 

Um dique que acolhe em suas águas esverdeadas as divindades do candomblé como uma lembrança forte da nossa herança africana. 


As fotos deste post foram todas tiradas por mim, em vários momentos de circulação da cidade, em passeios com amigos, da sacada de um prédio ou da janela um ônibus. São fruto do meu olhar que mesmo nublado pela rotina, vez por outra se desanuvia diante de tanta beleza.


    Praia da Barra. Salvador - Ba



Porto dos Tainheiros. Ribeira, Salvador - Ba




 Convento do Carmo, Pelourinho. Salvador - Ba

Detalhe do Farol da Barra. Salvador - Ba




Vista do Plano Inclinado Pilar. Salvador - Ba

Área interna do Palácio Rio Branco. Salvador - Ba



Varanda (acima) e vista da varando (abaixo) do Palácio Rio Branco. Salvador - Ba




Há uma frase que eu repito sempre: se eu não tivesse nascido em Salvador, tenho certeza que daria um jeito do destino me trazer para cá.

Parabéns, Salvador!

Vista da Ladeira da Montanha. Salvador - Ba
 (foto, tirada com câmera de celular, da janela de um ônibus durante um engarrafamento! rs...)

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