01 agosto 2012

Um conto de terror...meu!


Olá pessoas!

Nas últimas cinco semanas, vocês acompanharam os contos enviados para o Concurso Clássicos de Terror. Relendo as história, lembrei que eu também já havia escrito um conto neste tema numa aula de produção escrita, na faculdade de Comunicação Social. A professora nos pediu que escrevêssemos um conto de terror a partir destes elementos:

lua morta - rua torta - tua porta.

Aqui está o resultado!



SOMBRAS


 Nayara Nascimento Rêgo


Aramis era um homem de hábitos simples. Todos os dias saía cedo, pois o trabalho de porteiro lhe exigia que fosse o primeiro a chegar. Religiosamente às 8, lá estava ele na loja de seu Ferreira. Farda sempre limpa, arrumada, cabelo esticado à base de gel perfumado, sapatos engraxados e um sorriso polido no rosto. Cumprimentava com atenção cada um que por ele passava. Cumpria sua rotina de trabalho até às 6, quando a loja era fechada e ele liberado da portaria. Depois de 1 hora dentro de um ônibus lotado, Aramis chegava em casa. Esquentava a sopa que sua irmã lhe deixava todos os dias, ouvia as notícias no rádio e ia dormir. Simples, como eu disse, eram os hábitos de Aramis. 

Aquele dia começou como todos os outros: Portaria, sorriso...mas o que Aramis não sabia é que seu Ferreira tinha planos e estes o incluíam. Era preciso fazer o balanço da loja e o chefe decidiu que a madrugada seria o melhor horário para isso. Não querendo lá ficar sozinho, pediu que Aramis lhe fizesse companhia. O trabalhou findou-se perto das 4 da manhã e, por não ter costume de sair tão tarde, Aramis não sabia que o ultimo ônibus havia passado por volta da meia noite. Olhou para um lado, olhou para o outro, não viu nenhum conhecido. O chefe havia ido embora. Restava-lhe então ir andando pra casa. Antes de começar sua caminhada, olhou para cima buscando ver a lua que lhe iluminaria os caminhos escuros da cidade, porém, a sua busca foi em vão. Viu apenas uma lua morta, pálida, quase escondida pelas nuvens que teimavam em brincar na sua face. 

Aramis, então, pôs-se a andar. Sua casa ficava longe, mais do que ele imaginava, na verdade. Foi ao virar uma rua torta que ele sentiu um arrepio que lhe percorreu a espinha. Parou, olhou para trás, mas a rua estava tão erma quanto todas as outras pelas quais ele havia passado. Andou mais um pouco e, novamente diante da sensação, virou-se o mais rápido que pode, como se quisesse surpreender algum assaltante ou sujeito mal intencionado. Não havia ninguém, pelo menos foi isso que Aramis repetia para si mesmo em voz baixa, no começo, e depois cada vez mais alto, enquanto apertava o passo. Por mais que tentasse comandar seus pensamentos, a imagem de um vulto se esgueirando pelas paredes não saía de sua mente. 

Tentou rezar, mas, diante do nervoso, não apenas suas pernas tremiam como as orações lhe faltavam. Fez o sinal da cruz repetidas vezes, quase compulsivamente, mas o terror não diminuía. Quanto mais corria mais perto sentia a presença do que ele julgava ser uma mulher, pois no vulto, distinguiu algo como cabelos compridos ao vento. Podia jurar que sentia seu hálito gelado serpentear em seu pescoço. Ainda faltava muito chão para sua casa e Aramis sentia que a qualquer momento seria apanhado pelo que quer que fosse aquilo. Pensou que sua única chance seria se esconder em algum lugar e esperar amanhecer, quem sabe assim conseguiria convencer-se do absurdo daquilo tudo. Passou por muitas casas, mas todas, como era de se esperar, estavam de trinco passado. Galpões, armazéns, lojas, tudo fechado, lacrado, sem chance de abrigo para um desnorteado e já cambaleante Aramis. 

Já quase vencido, Aramis olhou mais uma vez em volta e viu o que poderia ser sua salvação. Apesar das portas aparentemente fechadas, ele sabia que o padre costumava deixá-las apenas encostadas, pois não era raro que algum morador de rua buscasse ali o abrigo que o mundo não lhe dera.  “Senhor, apenas a tua porta poderá me proteger deste mal tenebroso”, pensou o porteiro com os olhos voltados para o céu. Reuniu as últimas forças e empurrou a porta...uma...duas...três vezes. Sim, naquela noite, o padre, temeroso pelo roubo do castiçal de prata, única riqueza de sua pobre paróquia, resolveu se render às demandas terrenas e passou o trinco na porta. O corpo de Aramis tombou, deixou-se escorregar como uma roupa caindo do cabide e nas escadarias encontrou sua parada. Com os olhos arregalados e o pavor estampado na face, ele ficou ali, imóvel...gelado...morto. 

Dizem que nas noites mais frias e pálidas é possível ver um vulto circundando as escadarias da Igreja, como a vigiar os que se atrevem a vagar pelas sombras da noite.

FIM.

Nenhum comentário: