14 dezembro 2012

Resenha: Deixa ela entrar

Olá pessoas, 

a resenha de hoje é de um livro que teve um grande impacto em mim: Deixa ela entrar, do autor John Ajvide Lindqvist, enviado pela editora parceira Globo Livros.

A minha ideia inicial era fazer esta resenha em vídeo, mas ficou meio complicado gravar, então preferi compartilhar aqui. O livro foi publicado em 2004, mas chegou no Brasil apenas este ano. É curioso notar que o lugar onde se passa a historia é a primeira coisa que o autor nos apresenta e o faz de forma bem crua:





Saíram dos prédios e descobriram que a terra já estava aberta e revolvida. Era só se sujeitar ao que havia ali” (p. 11).

E ainda acrescenta: “Só uma coisa estava faltando. Uma história”.

Porque achei isso curioso? Bem, porque esse início passa a ideia, que é confirmada com o decorrer da narrativa, de que, assim como não havia passado, também não havia futuro. Os personagens eram pessoas sem perspectiva, tanto lhes importa viver 50 anos ou morrer no mesmo dia, seus dias e seus semblantes eram cinzentos, não importando se estavam na meia idade ou ainda eram crianças na escola.

Eu poderia (guardem esse termo e vejam o que penso no final!) dizer que Deixa ela entrar, se passa em 1982 e conta a história de Oskar, um garoto de cerca de 12 anos, morador de Blackberg (subúrbio de Estocolmo) e para o qual os dias de aula são sempre um tormento. Ele é constantemente maltratado, humilhado e fisicamente machucado por um grupo de colegas, liderado por Johny, sempre perito em piorar as situações. Oskar mora com a mãe, ganha uns trocados distribuindo anúncios publicitários e visita o pai de vez em quando em outra cidade. Seu único amigo que vemos na história é Tommy, se é que poderíamos chamá-lo assim. Quando sonha acordado, Oskar imagina-se forte e dando o troco em todos aqueles que o feriram. Sua rotina muda quando, num desses ensaios de vingança, ele vê, pela primeira vez o reflexo de Eli na lâmina de uma faca.

O livro é dividido em 5 partes:

Parte I: Feliz daquele que tem um amigo como esse

Nos apresenta Oskar e descreve o bullying sofrido. Também introduz Hakan e Eli, bem como seu relacionamento estranho. E, quando eu digo “estranho”, estou sendo bem comedida.

Parte II: Afronta

Começam os crimes e as circunstâncias associadas. Vale destacar que a descrição dos mesmos é tão chocante quanto toda a história. Vemos a amizade entre Eli e Oskar nascer e chegamos à parte possivelmente mais nojenta: a pedofilia de Hakan. Gente, me deu náuseas, me deu tristeza, me deu revolta. Me deu tanta coisa que eu tive literalmente que parar de ler...e respirar.

Parte III: Neve derretendo na pele

Aqui vemos Oskar experimentando outros sentimentos que não apenas o medo de ser machucado.  Somos apresentados a outros personagens cujo cenário mais recorrente é um bar. Esses são expressões máximas do que aqueles meninos da idade de Oskar se tornarão. Temos muita coisa de Oskar x Johny (o algoz), vemos a relação entre Oskar e o pai e dois momentos marcantes na história: a “contaminação” de Virginia e a caçada ao “Monstro”.

Repito: esse livro tem uma capacidade incrível de chocar e, ao mesmo tempo, atrair. Você não quer ler e se arriscar a saber de mais coisas horríveis, mas, ao mesmo tempo, a leitura é tão envolvente, o horror é tão bem narrado, que você se submete e vibra a cada página. Eis um trecho sobre a caçada:

É a caça ao monstro. À aparência dele, às coisas que fez. Ele é o Monstro, aquilo de que tanto falam os contos de fadas. E cada vez que o capturamos, queremos fingir que é para sempre” (P. 363).

Parte IV: Lá vem a companhia do duende!

Os eventos se precipitam e as coisas ficam muito intensas, mas o foco aqui é o relacionamento entre Oskar e Eli e tudo que isso representa.

Parte V: Deixa ela entrar

É o fechamento da historia, onde o título do livro se justifica mais do que em qualquer outro momento, na medida em que Oskar permite que várias coisas entrem na sua vida...em especial, ela mesma.

Além do foco principal "Oskar-Eli-Hakan", há vários núcleos coadjuvantes e fundamentais para os eventos, com destaque para a relação sufocante entre Oskar e sua mãe, entre Tommy e sua mãe e padrasto  as ações dos agressores Johnny/Jimmy/Robban/Micke e a única figura doce em toda a história: a professora de Oskar. Ela é completamente deslocada no enredo porque sua postura difere de toda a aura cinzenta e crua que se apresenta. A professora é quase uma espécie de “apesar de...”, no sentido de que: apesar de toda a maldade do mundo, alguém pode lhe entender e lhe alcançar.

Opinião geral:

Uma das coisas mais interessantes é que nada no livro é novidade, mas ainda assim o enredo é surpreendente. As histórias são apresentadas em blocos e no decorrer do enredo as costuras vão sendo feitas, de modo que percebemos as ligações existentes entre as pessoas, já que elas, de algum modo se conhecem ou já se viram em alguma situação. A leitura é envolvente porque a trama é bem delineada, os personagens são multifacetados e bem apresentados.

Aqui cabe um destaque: o vampiro que John Ajvide Lindqvist nos traz é aquele clássico, cruel, que não pode andar sob a luz do sol, dependente de sangue fresco, com poder de regeneração, o morto vivo. Nessa história o vampirismo é tratado como se fosse uma contaminação, algo que cresce dentro das pessoas, se apossa de sua essência e a pessoa deixa de ser quem ela é. Ser vampiro é perder a noção de humanidade, porque há uma luta interna para não machucar quem se ama, mas ela sempre é perdida.

Opa, opa, opa! Vampiro...como assim?!

Sim, minha gente, esse é um livro de vampiros e vocês devem estar se perguntando: porque ela só falou isso AGORA?

Por um motivo simples: o vampirismo e outros elementos sobrenaturais foram inseridos de modo tão natural que em nenhum momento soou forçado ou impossível de acontecer. Como Joca Reiners Terron disse, na orelha do livro: o horror da história é que ela parece algo que aconteceria com qualquer um de nós. Além disso, porque ele trata de tantos assuntos (pedofilia, homossexualidade, o amor em suas variadas formas, a dor de existir e o próprio), que o vampirismo é apenas mais uma...metáfora. 

Para finalizar, gostaria de retomar algo que disse lá em cima: eu falei “poderia dizer que essa é a história de Oskar”, lembram?

Sim, eu poderia, mas não é apenas isso. Deixa ela entrar é uma história de amor: do excesso, da falta, da corrupção do amor, do amor maduro, do amor egoísta, do amor sem exigências. Mais que isso: Deixa ela entrar é uma história sobre a solidão que habita a vida de cada um.

Um beijo e até mais! :)

15 comentários:

Francye Ramus disse...

Bom trabalho!

Maura C. Parvatis disse...

Que resenha, que resenha... Ótima!

Eu fiquei realmente feliz quando soube que o livro - FINALMENTE - seria publicado aqui, após conhecer o filme, terei o privilégio de ler o livro.

Beigos!

Nayara disse...

Obrigada! :)

Monique Químbely disse...

Nossa, sua resenha está incrível :D
O livro me encantou só por suas palavras.
Parabéns.
Gosto muito de histórias assim... marcantes, com um tema conhecido, mas totalmente única mesmo assim. Acho que é isso o que todo leitor(a) busca no meio literário: algo pra chamar de "único" sem aspas, sem porém.

Melissa disse...

Nay !!
Estava vendo esses dias o telecine e me deparei com um filme e pensei :"acho que é uma versão daquele filme que a Nayara elogiou no blog ... e fui procurar e num é que é mesmo. Esse livro tem uma versão cinematográfica : http://telecine.globo.com/filmes/deixe-me-entrar/

Não sei se já sabia mas está aqui !
beijinho
Melissa

Rodrigo Luiz disse...

Muito boa resenha =D

Bem, não sei muito o que falar do livro, ainda não o li, mas vi a versão em filme da história. Na verdade, a primeira versão é sueca e foi feita em 2008. A versão americana é uma versão indireta do livro, pois se basea no filme sueco.

No filme, o vampirismo também é abordado de forma muito natural, não sendo o foco e se tornando mais um dos diversos elementos representados. Ele é cheio de cenas implícitas que ampliam muito o suspense, e ótimas metáforas - a principal é uma em que Oskar e Eli se conversando tocando as mãos separados por uma tela de vidro. Além disso, o clima captado é gélido e soturno, deixando a solidão sentida pelos personagens quase tangível. É um filme fascinante, e pelo que vejo, o livro também.

Próximo da lista para leitura

Alessandro Yuri Alegrette disse...

Olá, Nayara. Ótima resenha. O livro é realmente muito interessante pelo modo como instaura o sobrenatural aos poucos dentro de uma ambiente cotidiano. Assim, como vc disse ele pode ser compreendido como uma metáfora: Eli, a criatura vampira é uma espécie de duplo de Oskar, uma vez que faz tudo aquilo que ele gostaria de fazer, mas não tem coragem. Também chama a atenção a associação de proximidade entre o vampirismo e a pedofilia. Ambas no livro aparecem como práticas terríveis, mas que os personagens não conseguem se livrar porque são descritas como vícios. Eu considero Deixe ela entrar um dos melhores livros sobre o tema dos vampiros e devemos ficar de olho no seu autor, que consegue e muito dar continuidade ao horror gótico sem apelar para velhos clichês. Bom, é isso. Abraço.

Nayara disse...

Francye, Maura, Monique, Rodrigo...MUITO OBRIGADA pelos comentários tão amáveis! Agora que me dei conta da vergonha de não ter respondido os mais antigos. Me desculpem! :)

Oi Alessandro, seja bem vindo! Obrigada pela visita e elogio. Realmente, Deixa ela entrar é um livro marcante, incrível e, sim, o autor é muito, muito bom! Li Mortos entre Vivos e deixei resenha aqui no blog. Outra temática, mas igual qualidade. Um bj. :)

Weslley Vieira disse...

De todas as resenhas desse livro que vi, essa foi de longe a que eu mais gostei. Meus parabéns!

Nayara disse...

Olá Alessandro e Weslley, muito obrigada pelos elogios de vcs. Esse é um livro que realmente gosto muito! Um beijo e voltem sempre. :)

Weslley Vieira disse...

Terminei de ler a minha cópia ontem e fiquei um pouco intrigado. O que de fato acontece ao Håkan? E mais. É verdade que existe uma continuação?

Nayara disse...

Hum...não posso dar spoiler aqui...rs, mas...digamos assim, só tinha uma saída pra ele. Nunca ouvi falar de continuação...onde vc viu isso?! Bj :)

Weslley Vieira disse...

Em vários site de notícias. No Omelete você encontra a matéria. De acordo com o que eu sei, será uma prequela do livro anterior, focada no passado de Eli.

Anônimo disse...

Não tem continuação? Nem projeto de lançar uma?
Queria muito ler uma continuação...

ps: Parabéns pela resenha!

Anônimo disse...

Excelente resenha, não sabia da existência do livro, porém sou apaixonada pelos filmes, principalmente o sueco, que tem um clima inebriante. Parabéns pelo trabalho! :)