17 abril 2013

Perdemos a vergonha de dizer "não sei"...


Eu nunca entendi, e acho que nunca vou entender, essa mania das pessoas em habitar o 8 ou o 80. Não seria mais fácil e mais útil arriar as trouxas no meio? Parece que não.

Antigamente as tínhamos vergonha de dizer “não sei”. Hoje em dia dizemos “não sei” à torto e à direita e, muitas vezes, com uma desfaçatez desaforada, destemida, abusada. E vergonhosa.

Outro dia presenciei um atendimento médico de um jovem residente de mangas arregaçadas, jaleco aberto e queixo apontando para o teto que entrou no quarto sem ao menos dar bom dia (e me fez perguntar a mim mesma se a aquisição de conhecimento técnico é proporcional à perda de educação doméstica), aproximou-se do paciente e informou ter sido indicado para fazer uma avaliação de seu estado clinico. Até aí tudo normal. Acontece que ele disse ao paciente que havia ido, mas não sabia por que, já que a médica não havia especificado.

Gente, como é isso? A gente não se compromete, não se importa, não se responsabiliza? Essas coisas saíram de medo e esqueceram de me avisar?

Esse é um caso típico de quem não se envergonha do seu “não sei”. Mas deveria. Convenhamos, amparados pela desculpa de um “não sei” socrático, enfiamos a vergonha no saco e colocamos na mesa a cara de pau gelada, agressiva e, assustadoramente, natural, de cada dia.

As nossas escolas de medicina, psicologia, enfermagem, fisioterapia e etc estão cheias de gente assim. Gente com olhar escrutinador, que ainda nomeia pessoas pelos órgãos a operar, que confunde respeito à privacidade com frescura, que não tem a capacidade de se colocar no lugar do outro. De quem se levanta todos os dias para ver pessoas como objeto de estudo, de quem não tem sensibilidade nem pra se colocar enquanto um humano diante de outro. Gente que ri da doença mental, desrespeita a vontade alheia, manipula, na pior definição do termo. Gente que precisa de programas de humanização. Outro dia uma amiga disse, em veemente discurso, que odeia a expressão “humanização”, porque, em vez de trazer de fato, uma coisa benéfica, ela aponta muito mais para o tipo de gente que somos, a ponto de, ainda que humanos, precisemos ser humanizados.

As pessoas não têm mais vergonha de ofender, humilhar, acusar. Agora chamam isso de sinceridade ou, ainda pior, personalidade forte. Desculpe, mas, para mim, personalidade forte é se indignar, é não achar normal desrespeitar ou ser desrespeitado, é procurar saber o nome da pessoa com quem fala, não porque pode precisar abrir uma reclamação contra ela, mas porque está se relacionando com uma identidade.

Sendo assim, quem for lidar comigo nem pense em se liberar da necessidade de usar de gentileza. Me dê bom dia, me peça desculpas, me peça licença e por favor. Olhos nos meus olhos quando falar comigo, meça palavras por consideração e respeito. E quando me disser “não sei”, que seja por sinceridade e não pela incapacidade de me ver como gente.

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