10 abril 2013

Porque somos todos feitos de histórias...

Na semana passada eu fui à livraria. 

Ei, não precisam levantar as orelhas como felinos em alerta; não quebrei a rehab. Até tentei, mas os preços da loja não permitiram que me jogasse de cabeça num sem vergonha “eu mereço”.

À propósito, vocês já notaram que baniram os puffs do shopping? Não sei na cidade de vocês, mas na minha tô quase colocando uma placa "procura-se puffs desesperadamente". Tenho pra mim que é uma estratégia para nos obrigar a) rodar como baratas tontas, vagando de loja em loja à procura do artigo que vai preencher nossa necessidade de afeto, status ou pelo menos matar o tempo que nos mata, b) migrarmos com a turba furiosa para a praça de alimentação onde ingerimos calorias que nem valem à pena, afinal, a comida tem gosto de plástico e somos levados a pensar que Burguer King é melhor que McDonalds, quando, na verdade, é apenas mais do mesmo.

Mas, eu ia falar de livros e não de comida. Enfim, depois de achar um canto de sofá, coisa rara na livraria, resolvi ler. Sim, pensei nisso depois de sentar porque o esquema é assim: se você demorar muito escolhendo o livro, perde o lugar e, se conseguir o lugar, tem que se conformar com os livros que ficam na torre giratória, completamente amassados depois de passar por tantas mãos.
Pobre livros prostituídos. Para onde será que vão? Não quero crer que alguém os compre naquele estado. Será que, quando a loja fecha, eles se juntam para dividir suas memórias? Não sei. Nunca saberei. Esse mistério reside junto ao mistério dos brinquedos que despertam à noite. E dos lápis de cor que somem para nunca mais. 

Enfim, estava lá eu, olhando sem esperança para a torre giratória. Agarrei, com dois dedos, um livro. Mirei Cortázar, esquecendo-me da sua mania de amante exigente, mas ele não se fez de rogado: não se deixou ler na poltrona de couro sintético, embaixo da escada, cercada de crianças que vasculhavam a prateleira em frente. Com um gesto respeitoso devolvi o orgulhoso Cortázar à torre e, em seu lugar, lancei mão de um temido autor: Camus. O livro era O estrangeiro, que manteve essa condição para mim já que a leitura de poucas linhas me bastou para fechá-lo. É ruim? Não faço ideia, nenhuma letra me adentrou a cabeça. Ao alcance da mão sobrou Meg Cabot. Literatura mulherzinha, dizem muitos. Eu nunca li, e pensei que seria a chance de passar um tempo ali, esticando as pernas e olhando a fila do caixa: o que as pessoas escolhem ler? Ok, três páginas vencidas de Meg Cabot e eu quase pensando que seria interessante procurar uma versão menos amassada e talvez levar para casa.

Não. A quarta página me cansou com a ironia rasa e o senso de humor forçado. Mas pode ter sido só influência da poltrona de couro sintético, os passos na escada e o tilintar de xícaras, acima de mim. Olhei pra frente e vi a estante de revistas. Você faz ideia de há quanto tempo eu não leio uma revistinha? Mais do que eu gostaria de escrever aqui. Peguei uma da Luluzinha e rapidamente voltei à infância, quando tomava caldo de feijão com macarrão embalada pelo desenho animado daquela menina de vestido vermelho e cachinhos.

Eu não li. Na verdade, eu devorei as historinhas e, de repente, sumiu o ranger do couro sintético, o balançar da escada e as pessoas na fila. Como um flash, já era hora de ir, mas ainda houve tempo para ver um intrigante debate entre um rapaz de seus quase 30 anos e um menino de pouco mais de 11. Eles trocavam impressões sobre um gibi e enquanto o menino se mostrava ávido por saber mais, o jovem lhe dizia que não, ele não deveria ler ainda aquele que estava em suas mãos, pois anteciparia acontecimentos demais. Aquele cruzamento de fronteiras me encantou, sabe. Os olhos de ambos brilhavam e suas mãos gesticulavam, as revistinhas agitadas e os sorrisos narrando as aventuras dos heróis. Que outra coisa além de histórias iguala tanto as pessoas? Deve ser por isso o meu amor e a minha gratidão a elas.

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