29 março 2014

Salvador, 465 anos.

Passei o dia inteiro pensando no que escrever. Pensando se escrever.

O que dizer da minha cidade que já não tenha sido dito? O que dizer sem que soe piegas, forçado ou panfletário demais?

Quis Deus que eu nascesse nesse pedaço de chão que é vendido ao mundo como a terra da alegria, mas só quem mora aqui sabe o custo de cada sorriso. Sim, é verdade, sorrimos muito, às vezes, demais. E é verdade quando dizem que fazemos festa o ano inteiro, mas, acontece que festa, aqui, é negócio. Não me venham com alegação de preguiça - eu espero mais de vocês que a reprodução de um discurso racista.

Somos uma terra de contrastes, como tantas outras, eu sei, mas as dores e alegrias daqui são as que sei enumerar porque as vejo misturadas todos os dias. É no meu caminho que vejo pessoas que se atropelam com uma pressa de ir não sei onde, que dão roubadinhas no trânsito, que usam o jeitinho nas filas, que jogam lixo no chão, que desrespeitam as vagas reservadas, que depredam patrimônio público.

Mas, também é no meu caminho que eu vejo pessoas, diante de um pedido de informação, não apenas dizendo onde fica o lugar, mas, quase sempre conduzindo a pessoa, num receio quase infantil de que ela se perca de seu destino. É aqui que sou carinhosamente chamada “venha cá, mãe!” pela moça do refeitório porque ela achou que havia colocado pouco arroz no meu prato.


É, eu falo mesmo com sotaque puxado, cantado,  batuco na mesa, me arrepio ao som do berimbau, lacrimejo com o afoxé do Ghandy e encho a boca d’água só de pensar no acarajé quentinho. 






Toda sexta-feira eu visto branco, faço o sinal da cruz diante da Igreja ou quando entro no mar e no meu carro tem pendurado fita do Bonfim e patuá. Cada espaço tem seu guardião e eu respeito, confio e acredito em todos. Minha proteção está nos altares e também nos terreiros.





Salvador é uma cidade estranha, quase louca, cheia de curvas, ladeiras, becos, escadas, viradas, quebradas. Se tá difícil, dizemos que é barril. Se a moça tá bonita, tá toda boa.Se a pessoa se chateou, pegou ar. Se deu mancada, mandamos que se compreenda



Pra vocês terem ideia do tamanho do meu amor por essa cidade, basta ler minha apresentação aqui ao lado. Tá estampado na primeira frase. Nosso cheiro natural é temperado com mar e dendê e sempre me traz a certeza de que eu nasci no exato lugar em que deveria estar.



*todas as fotos desse post foram tiradas por mim. Se quiser reproduzir, por favor, dê os créditos. E me avise :)*

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