18 maio 2014

A peste

Era mais um dia como qualquer outro e eu estava me achando muito sortuda de ter conseguido pegar o ônibus praticamente assim que cheguei ao ponto (leia-se, 10 minutos depois) e, creiam, tinha lugar pra sentar. Ok, era no fundo e, no trajeto que ele cumpriria, a enorme quantidade de quebra-molas aliada à pequena capacidade de delicadeza dos motoristas de ônibus me fariam saltar e quase bater a cabeça no teto. Mas, ainda assim, sortuda, pensava eu.

O ponto seguinte fica bem aos pés da Igreja do Senhor do Bonfim e o ônibus quase nunca se demora nele, portanto, achei estranho ele não ter andado e me virei para entender o burburinho. Acontece que três garotos, de uns 7ou 8 anos, resolveram se pendurar na porta e arriscar suas jovens e mal cuidadas vidas. Entre o cobrador que bradava um “vambora, desce logo” e a minha apreensão de que o motorista resolvesse arrastar o ônibus, a mulher ao meu lado expressou sua não solicitada opinião sobre a cena: “pestes!”.

Na minha cabeça, eu ensaiei dizer-lhe que a culpa (na falta de outro termo melhor) não é deles, mas da nossa sociedade maluca que massacra a todos, mesmo que alguns pensem que estão escapando. Lembrei do panóptico, que nada tem a ver como o assunto, eu sei, mas que nos mostra que aqueles que vigiam também são prisioneiros, mesmo que não se deem conta disso. (Ok, isso é influência do livro que estou lendo e que, além de Foucault, fala das cicatrizes que carregamos. Isso também escapa ao assunto do post).

Fato é que sempre me choca o quanto crianças como aquelas – pobres, negras, mal vestidas, mal alimentadas ...quase não olhadas – são instantaneamente despojadas da condição de criança e do consequente instinto de proteção que tal condição despertaria em todos nós. Eles são as “pestes”. São a “peste” que se espalha nas esquinas e nas manchetes, que justifica os pedidos de redução da maioridade penal. Que faz os pais voltarem pra casa com os corações aquecidos porque seus filhos estão em segurança.


Mas, eu não disse nada. Busquei na bolsa os meus fones de ouvido e os coloquei. Queria nada mais que abafar o mundo e as minhas perguntas.

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