31 maio 2014

Andróides sonham com ovelhas elétricas? (Phillip K. Dick)




Olá pessoas!


Demorou, mas chegou e eis que temos hoje a resenha de “Andróides sonham com ovelhas elétricas?” do autor (perfeito.incrível.brilhante.surreal.amor.da.vida) Phillip K. Dick


Por anos eu tentei encontrar uma edição desse livro, em qualquer formato, mas nunca tivesse sucesso. O motivo era simples: junto às memórias de infância, recheadas por imagens de Indiana Jones e Star Wars, estavam lá as imagens de Blade Runner, o caçador de andróides

É claro que naquela época eu não tinha muita noção do que tratava o filme, muito menos das profundas reflexões que ele poderia suscitar, mas, o apelo visual me impactou, em especial, aquele final, que eu nunca esqueci. Saber, hoje, que a cena final foi uma criação brilhante e individual de Rutger Hauer, só me faz admirar ainda mais aquela obra e pensar que, poucos livros dariam margem, ou inspirariam aquilo. 


Mas, disso eu já sabia: poucos livros são como livros de Phillip K. Dick. 

Vocês conseguem imaginar a alegria que eu senti quando a editora Aleph, parceira do blog, anunciou que publicaria esse livro? E mais: quando eu solicitei e ela confirmou o envio? 

Gente, praticamente fiz dancinha louca pela casa!

Eu disse que, se fizesse um vídeo sobre esse livro, apenas diria: Dick é amor. A resenha tá saindo por escrito, mas vou manter a frase. 


Dick é amor e eu gostaria de dizer antes de qualquer comentário sobre a história que vocês deveriam fazer um favor a si mesmos e ler os textos desse cara.


Senta que lá vem história...


Houve a Guerra Terminus e a Terra tornou-se um lugar extremamente difícil de se viver, contaminado por uma poeira tóxica, radioativa. A maioria das pessoas emigrou para colônias em Marte e, no intuito de incentivá-las a ir, foi-lhes fornecido andróides. Acontece que, alguns desses andróides se rebelaram contra seus donos e fugiram para a Terra, depois, claro, de matá-los. Rick Deckard tem como função, “aposentar” esses andróides que chegaram ilegalmente à Terra, mas a grande questão é: como identificá-los?


Rick vai levando sua vida, pacatamente, com sua apática mulher e sua ovelha elétrica, até que outro caçador se machuca em campo, e ele recebe a missão de aposentar 6 andróides Nexus 6, o modelo mais avançado da época. 


Nesse ponto surge a pergunta que Dick traz em sua obra, de modo geral: o que confere humanidade, ao ser humano? O que faz com que ele seja diferente e permita a identificação de um andróide? O raciocínio, as emoções, a empatia?


Andróides sonham com ovelhas elétricas?” é um livro para ser lido várias vezes, pensado, refletido, digerido, analisado, tamanha a quantidade de links que ele estabelece. O livro foi publicado em 1968 e é absurda e chocantemente atual.


A proposta de caçar os andróides faz brilhar os olhos de Rick por um motivo simples: o dinheiro recebido seria sua chance de comprar, finalmente, um animal de verdade – raro, caro e só disponível por catálogo. Ter um animal de verdade, nessa época, é sinal de status e, quem não podia pagar se contentava com réplicas elétricas, mas sempre tentando esconder o fato de não serem reais. Ao mesmo tempo, quando ele se envolve nessa tarefa, sua perspectiva vai mudando à medida em que ele interage com os andróides, entende seus anseios e passa a questionar os próprios.


Esse mundo de simulacros em que a Terra havia se tornado incluía ainda dois dos elementos mais criativos do texto: a caixa de empatia e o sintetizador de humor. O primeiro equipamento estava relacionado a uma forma de quase religiosidade chamada Mercerismo; Mercer, esse sujeito que emerge depois da guerra, era o suposto messias a quem as pessoas se ligavam através da caixa de empatia e participavam de uma experiência transcendental que, de alguma forma, sustentava suas vidas. Muito curioso que a TV, exibindo apenas um programa 24 horas por dia, venha a desempenhar um papel fundamental nessa relação entre as pessoas e o Mercerismo. 


Já o sintetizador de humor é um troço genial e assustador: as pessoas, simplesmente, escolhiam nesse aparelho o humor/emoção que elas desejavam sentir. Exemplo: se eu acordei meio entediada, bastava selecionar “criatividade” e pronto, já estaria pronta para trabalhar e executar minhas tarefas de modo preciso, com energia e qualidade. 


Claro, assusta pensar que as pessoas não sejam mais capazes de entrar em contato e vivenciar suas emoções, espontaneamente, passando a ser programadas como máquinas de pão, mas, ao mesmo tempo, esse artifício nos oferece a personagem Iran, mulher de Deckard que, em vários momentos, seleciona opções que envolvem depressão e sofrimento porque ela sente, de algum modo, que viver naquele estado de anestesia ou felicidade programada não preenche as lacunas de sua vida. Ela busca o tempo todo “sentir”, mesmo que seja através do sofrimento. É instigante pensar na complexidade que é o desejo de ter uma experiência com algo real, não controlável nem fabricável, mas, ao mesmo tempo, ter perdido a capacidade de fazê-lo e precisar de uma máquina, sem escape aos simulacros.


Por fim, queria lembrar da presença dos “cabeça de galinha” ou “cabeças de formiga”, pessoas que se tornaram “especiais” por terem sido afetados pela “poeira radioativa”. A eles não foi permitido emigrar da Terra e aqui permaneceram subjugados e estigmatizados como inferiores. Fato notável: apesar de ter caixa de empatia e sintetizador de humor, a vivência emocional de Isidore, um “cabeça de galinha”, foi a coisa mais autêntica da história toda. Acredito que ele fosse, entre todos, o mais livre deles.


 

Eu sei, essa resenha ficou enorme, mas Dick traz pra mim a sensação que toda leitura deveria trazer: encantamento, questionamento, emoção, perplexidade. E eu precisava falar disso assim, com todas as letras.


Livro 5 estrelas e uma recomendação: leiam.


*Este livro foi enviado como cortesia pela editora Aleph, parceira do blog. As opiniões positivas ou negativas contidas nas resenhas refletem as minhas impressões, independentemente da forma de acesso (compra ou parceria) ao livro *

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