08 julho 2014

Fazendo as pazes com a Copa



Hoje teve Brasil 1x 7 Alemanha, mas eu não vim aqui pra falar desse vexame, afinal de contas, os jornais, sites e redes sociais já estão fazendo sua parte. Eu vim falar de mim.

Lembro da Copa de 86 quando, ainda bem criança, chorei, de tristeza e vergonha, no chuveiro, escondendo as lagrimas, por ver o Brasil sair da Copa pelos pés da Argentina. Foi Argentina mesmo? Não sei. Minha memória aponta Canniggia, aquele loiro irritante que insistia em rir da gente e nos massacrar. Eu poderia verificar isso no Google, mas, prefiro deixar que as minhas memórias, pelo menos parte delas, mantenham-se como é próprio das memórias: recortes mal costurados, sempre alterados, dos acontecimentos vividos. Não preciso de certezas nas lembranças, bastam-me as sensações associadas. Aquele choro no chuveiro é bem vivo em mim, seja lá qual tenha sido nosso algoz. 

Veio a Copa de 94 e a dupla Bebeto e Romário fizeram meu coração disparar e minha garganta quase em carne viva de tanto gritar: é tetra. Participar de uma caminhada atrás do “jegue trio”, debaixo de chuva, foi um golpe na dignidade, mas também inegável choque de alegria. 

Aí veio 98 e a convulsão de Ronaldo. Não vou discutir teorias, razões ou a grana envolvida. Eu sei que o saldo foi uma decepção tão grande que me roubou a vontade de torcer em 2002, 2006 e 2010. Pior. Houve momentos em que torci contra, com força e não me venham dar lições de moral sobre quão nojento é torcer contra seu próprio país. O escudo que vai na camisa da seleção é da CBF e não a bandeira do Brasil, portanto, não torcer pela seleção não quer dizer, necessariamente, que eu não torça pelo país.

Não sou patriota, não encontrei motivos ou necessidade para tanto. Não acredito na obrigatoriedade de amar a terra em que se nasce, pelo simples fato de ter nascido nela. Não acredito em amor por forçado, estabelecido, determinado. O mundo já foi um grande todo e voltará a ser, portanto, posso amar o pedaço que quiser, ou não amar nenhum. Não concorda? Direito seu. E meu, de pensar assim.

Acontece que veio 2014 e, depois de 16 anos eu, finalmente, consegui torcer pra seleção. Não conhecia metade dos jogadores, não gosto do Felipão, não sei onde foi parar o chato do Zagallo e não entendo a paixão pelo Neymar. Descobri o David Luiz, representante de uma categoria de pessoas que creio ser da melhor estirpe: aquelas que riem de si mesmas e se permitem ser ridículas. Convenhamos: é preciso muita coragem pra se permitir ser ridículo. Minha torcida não foi aquela de 94. Não tenho mais aquela idade nem a ingenuidade, não comprei camisa, corneta ou chapéu. Feliz ou infelizmente, a gente ganha anos e malícia, mas, ainda assim, eu fui sendo contagiada e no fatídico jogo Brasil x Chile, meu coração ficou apertado, pendurado naquelas traves, só aliviado depois da classificação.

Mas, como eu disse lá em cima, hoje foi Brasil 1x7 Alemanha. Há 16 anos eu nem consegui chorar, apenas afundei numa tristeza enorme, que virou raiva, ressentimento e amargor. Hoje eu fiquei chocada com os 5 gols em menos de 30 minutos e ri. Ri da surrealidade da situação. Ri das piadas no twitter. Ri da perplexidade dos jogadores. Ri, de certo modo, satisfeita comigo mesma por ver que, sim, eu continuo passional, afinal, somos quem podemos ser, mas aquela cicatriz, finalmente, sarou.

A Copa tá acabando e tudo que eu queria é que ela fosse zerada e começasse tudo de novo. É difícil desapegar dessa sensação de férias, mesmo em trabalho, de Carnaval fora de época, de suspensão da obrigações. Concordo com quem brada: Copa das Copas. 

The zuera...never ends.

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