26 agosto 2014

A Metamorfose (Franz Kafka)

A Metamorfose foi um livro que sempre me despertou muita curiosidade e, ao mesmo tempo, muito receio. Eu sabia do que se tratava e achava interessante, mas morria de medo da possível decepção por não gostar de um livro tão bem falado. Eu sei que todo leitura é uma aposta e só este pensamento já deveria ser suficiente para acabar com essa besteira de lista de autores e livros temidos, né? Mas não acaba. #mejulguemoumeacolham


E daí que eu queria ler algo curto e que fosse clássico. Queria, não sei por que, ler algo de peso e A Metamorfose apareceu como uma opção que poderia bem atender a esse desejo e foi assim que eu conheci Gregor Samsa (que eu, na minha maluquice não consigo desvencilhar de Game of Thrones só por causa da relação entre Sansa e Sandor Clegane, que é irmão de Gregor Clegane. Enfim, associações bizarras, nós trabalhamos!), o homem simples que, em um dia comum como qualquer outro, acorda e se vê transformado em um inseto asqueroso.

Sem entender o que lhe havia acontecido, Gregor se desespera quando, impossibilitado de mover-se, começa a ser acossado por sua família, pedindo que ele saia do quarto e questionando o porquê de seu confinamento. Como nada está tão ruim que não possa piorar, o drama se instala com a chegada de seu chefe e a iminência da perda de um emprego essencial para o sustento da sua amada família.
Eu poderia dizer que a parte mais interessante do livro é a forma como Kafka fala da aparência, da metamorfose de Gregor, sem, na verdade falar diretamente disso ou nomear o inseto, mas eu estaria dando pouco crédito a essa obra, já que a genialidade do texto, na minha opinião, é a apresentação processual, sutil, cortante, inteligente e sagaz das relações familiares ali delineadas.

O aperceber-se de Gregor sobre a significação de sua existência antes da metamorfose e as adaptações/mudanças necessárias a partir de sua nova condição é feita com maestria; o nojo que eu senti, inicialmente despertado pelo inseto de aspecto horrendo, aos poucos, foi migrando para o posicionamento das pessoas em volta dele. Antes da leitura, eu achava que a “metamorfose” dizia respeito tão somente à aparência de Gregor, sendo este um texto de realismo fantástico ou coisa assim, quando, na verdade, esse transformar-se em inseto pode ser lido como um espelho metafórico da gradual insignificância da figura do personagem.

Enquanto escrevo essa resenha, lembro de duas coisas:

1. uma passagem de Jesus Cristo bebia cerveja, em que Afonso Cruz diz algo mais ou menos assim: “morremos cada vez que deixamos de ser lembrados”. A Metamorfose fala exatamente disso;

2. Começo a notar que os autores/textos mais temidos tendem a ser aqueles que mais me surpreendem e me deixam feliz. EXCELENTE LEITURA!

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