17 agosto 2014

Jesus Cristo bebia cerveja (Afonso Cruz)

Olá, pessoas!


Olha eu de volta. Tem bastante leituras pra contar pra vocês e, aos poucos eu vou dando notícias, tá!

Hoje eu vim falar de uma leitura inusitada, que só aconteceu porque o título do livro me chamou de forma tão gritante e definitiva que eu não pude ignorar.

“A natureza não gosta de espaços vazios e preenche-os 
como um burocrata preenche requerimentos. 
Não deixa buracos em lado nenhum. Mesmo os lugares mais rarefeitos, 
como o espaço sideral e a estupidez humana,
são preenchidos por alguma coisa: luz, metais leves, preconceitos, 
partículas e subpartículas dos átomos, radiações, chavões e telenovelas”


Jesus Cristo bebia cerveja.


Acho que ouvi esse título pela primeira vez no canal da querida Inês, uma portuguesa que sempre tem dicas imperdíveis e faz a gentileza de compartilhar conosco no excelente Inesbooks. O autor, Afonso Cruz, já havia chamado minha atenção quando li o conto A queda de um anjo; gostei da mistura entre a crueza e a doçura, gostei da forma como ele me surpreendeu e tinha certeza que leria outras coisas dele, afinal, imprevisibilidade, penso eu, é uma coisa rara hoje em dia. Parece que todos os livros falam dos mesmo clichês, da mesma forma e trilham os mesmo caminhos. #sono.

Preciso dizer que, todas as vezes em que citei o nome desse livro, as pessoas ficavam entre curiosas e chocadas: “como assim?!”, é o que elas perguntavam, invariavelmente.  Enquanto elas faziam uma cara quase de desaprovação, eu não tardava a dizer que o título havia, praticamente, me tomado pelo braço.  Ter lido a sinopse foi um mero detalhe, porque eu me jogaria nessa leitura de qualquer jeito. Fato.

A história fala de Rosa, uma jovem moradora do Alentejo, vilarejo ao qual sua avó chama de cemitério. Rosa tem como parente apenas essa avó, idosa e adoecida, que sonha conhecer Jerusalém. Sem ter como levá-la até a cidade sagrada, surge a ideia: e o se o Alentejo virasse Jerusalém?

A certeza de que essa seria uma leitura diferente de tantas outras, veio logo na primeira cena do livro, na qual Antonia, a avó de Rosa, agacha-se para fazer xixi em plena rua e vemos, logo aí, a nossa personagem principal. É ela quem vai desfilando sua vida, costurando seu destino através das escolhas ou não escolhas, das violências silenciosas, das palavras ditas ou caladas.

Como eu defini no Instagram, essa história como crua, doce, triste e engraçada, porque, acreditem, ela é tudo isso. E mais. Afonso Cruz maltrata a gente, não vou me cansar de dizer isso. Ele faz com que a gente mergulhe nas suas ideias, acompanhe seus personagens e depois, terminada a leitura, nos larga cheios de suspiros e pensamentos sobre a imensidão que se esconde na vida de cada um. 

O autor se vale de uma linguagem extremamente poética e visual (gente, esse homem lança cada frase que te faz ler, e reler e reler, e embasbacar de tão bonito que é!) para apresentar diversos personagens, e são muitos, todos eles, de certa maneira, interligados, como só poderiam ser moradores de um vilarejo. A pobreza material é proporcional à riqueza de emoções proporcionadas pelo texto. Afonso Cruz abre mão do politicamente correto porque assim o pede a vida e nos narra uma saga emocionante, com personagens reais, humanos em essência, cada um representando um universo em si mesmo, como uma cebola e suas cascas.  Você quer levar a leitura adiante porque não consegue segurá-la, mas, ao mesmo tempo, não quer que termine. Assim como no conto que falei pra vocês, aqui ele também nos dá suas rasteiras e, sem piedade, coloca um nó na garganta do leitor.

“De cada vez que deixamos de ser percebidos, morremos”


Jesus Cristo bebia cerveja me fez adicionar mais uma pessoa à minha lista de autores que eu gostaria de, um dia, abraçar e dizer “obrigada”.

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