22 agosto 2014

Quarenta dias sem sombra (Olivier Truc)

Olá pessoas!

Quarenta dias sem sombra, que tipo de história pode vir de um livro assim intitulado? E com essa capa sangrenta? Digam a verdade, vocês também acharam que falava de vampiros, né? Pois eu achei.

E errei feio!

Nada contra histórias de vampiros, eu, inclusive, adoro, mas confesso que tô um pouco (muito!) cheia dessa temática e até na Irmandade da Adaga Negra eu dei uma parada pra refrescar e navegar por outros mares. Foi assim que eu achei que era hora de pegar esse livro e saber o que essas páginas tinham a me contar.

Quarenta dias sem sombra é um livro de ação policial e suspense, cuja história mostra o assassinato de um pastor de renas e o concomitante sumiço de um tambor ancestral; tudo isso acontece exatamente no dia em que o sol voltará a aparecer, depois dos benditos 40 dias, encerrando (timidamente, porque a luz aparece tão pouco, meu Deus!) a noite polar. Essa leitura foi experiência diferente de outras leituras policiais feitas por mim e acho que grande parte disso foi possível pelo estilo e ritmo de narrativa ditada pelo autor, o francês Olivier Truc



Eu consegui degustar a história, sem a avidez com que normalmente devoro os livros policiais. Porque achei isso bom? Bem, porque no movimento devorador, não raro eu me decepciono no final por ter ido com muita sede ao pote; sempre resta aquela sensação de que eu não aproveitei a viagem, sabe? Aqui foi diferente porque Truc soube dosar as cenas de ação, suspense, tensão (e bota tensão nesse cenário gelado e assustador!) e as cenas mais leves, suaves, reflexivas.

Sim, preciso dizer que esperava mais dos personagens; eu sou um pouco exigente quanto aos carisma e força que preciso ver/sentir nas pessoas que devem carregar a história. Esses personagens, creio eu, devem ser capazes de nos ganhar, cativar nossa atenção e nos fazer acreditar nas suas ações, motivações; devem ser compostos por características que nos façam esquecer que eles não existem. Infelizmente.

Não vi essa força em Nina Nansen e Klemet Nango, integrantes de um tipo especial de polícia, especifico para a região da Lapônia (sim, a terra do Papai Noel #comentariosedificantessempre), a Polícia das Renas. A história se passa na aldeia de Kautokeino, um lugar quase perdido, no meio do nada polar, predominantemente habitado pelo povo sami, uma minoria nórdica,  primeiros habitantes da região, quando ainda nem se sonhava com fronteiras, países ou mesma a chamada “civilização”. Nina vem de uma outra região, também nórdica, mas pouco familiarizada com os conflitos e crenças da região em que vai trabalhar. Já Klemet ocupa uma posição delicada, pois, ao mesmo tempo que ocupa a posição de investigador, não deixa de ser lembrado, por mais que queira, de que faz parte do povo sami, ainda que esteja tão ou mais por fora de suas tradições que as demais pessoas.

Truc usou o recurso de, não apenas contar a história e desenrolar o mistério, mas inserir elementos da vida particular de seus personagens a fim de humanizá-los, mas, embora isso tenha sido um pouco mais eficiente com Klemet, como Nina, ficou tudo tão mergulhado nas entrelinhas, tudo tão subentendido...que, no fim das contas, não rolou muita química com ela. Aliás, não sei se alguém teve química com Nina, dentro ou fora da história; achei a moça meio insossa.

Apesar disso, esse é o primeiro livro de Truc e eu achei que, realmente, foi uma estréia muito boa. A narrativa é altamente visual e, mais que isso, ele conseguiu a proeza de me fazer sentir tanto o frio intenso da região que servia de cenário (sério, gente!), como as emoções moduladas pelos acontecimentos, em especial, a frieza, a crueldade, a aridez da terra e das pessoas. 

O autor se utilizou de uma história policial calcada em dois acontecimentos (a morte e o roubo) para discutir muitas outras questões, algumas de modo mais explícito como a violência sofrida por minorias, o desrespeito às diferenças, a ambição irrefreada, intolerância religiosa, o massacre das antigas formas de organização social e de trabalho em prol de um suposto progresso que beneficia poucos e sacrifica muitos, assim como pincelou outras temáticas que, eu acredito, poderiam e deveriam ter sido mais exploradas, mas entendo que era muito assunto pra um livro só, como pedofilia, violência contra a mulher, nazismo, relações internacionais, fé etc.  


Por essa ousadia e por nos mostrar uma cultura pouco conhecida (tanto a sami da qual eu nem sabia da existência, quanto a própria Escandinávia, tão bela quanto misteriosa), pelo menos por mim, acho que Quarenta dias sem sombra vale à pena ser lido.

"Há quarenta dias as mulheres e os homens daquele imenso platô desertico que chamavam de vidda sobreviviam arqueando a alma, privados dessa fonte de vida (...) Klemet, policial e racional - sim, racional porque policial -, via naquilo o sinal intangível de uma culpa atávica. Do contrario, por que impor aos seres humanos tanto sofrimento? Quarenta dias sem sombra, reduzidos ao rés do chão, como insetos rastejantes". (Quarenta dias sem sombra. Olivier Truc. Pag. 15)

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*Este livro foi enviado como cortesia pela editora Tordesilhas/Alaúde, parceira do blog. As opiniões positivas ou negativas contidas nas resenhas refletem as minhas impressões, independentemente da forma de acesso (compra ou parceria) ao livro *

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